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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O derradeiro tio


Pois é. Parece que vou ser tio novamente e desta vez é uma menina. Neste momento conto com 3 sobrinhos e 1 sobrinha. Infelizmente ainda não conheci a minha sobrinha mas essa é uma falha que pretendo remediar em Março. A balança começa assim a equilibrar-se.

"Quero ver que tipo de brinquedos e de conversas vais ter com uma menina!" - escreveu ela seguido de uma risada.

Pois. Também não sei. Apenas tenho experiência prática em ser tio de 2 rapazes e a chave do sucesso no meu relacionamento com eles é ser uma criança grande. E como alguém uma vez disse, a diferença entre um homem e um miúdo, é o preço dos brinquedos. Para mim é muito fácil entrar numa loja de brinquedos e perder-me. De comprar-lhes coisas como se o fizesse para mim. De os ajudar a passar níveis de jogos na playstation e de jogar futebol.

Uma rapariga... bom. Também há outras coisas que sei fazer. Posso ajudá-la com os trabalhos de casa, ensiná-la a nadar ou a andar de bicicleta. Posso ir jogar ténis com ela ou jogar playstation. E pode até ser que goste de andar de mota. Pelo menos a mãe dela gosta. Agora que penso nisso vamos poder fazer muita coisa juntos.

Pois é minha querida. Vais ver que vai ser giro. Fico à tua espera.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Galeto



Primeiro dia do ano. Como seria de esperar, acordei tarde e com aquela desconfortável sensação de desidratação e fome. Levantei-me e fui até ao frigorífico, apenas para descobrir que pouco ou nada tinha que me pudesse saciar, para além de um chouriço. Não tardou para que me perdesse nas inúmeras formas de colmatar a fome com aquele chouriço. Pensei  em pão com chouriço mas rapidamente coloquei a ideia de parte visto não ter pão em casa. Pensei numa bela ervilhada com ovos escalfados, mas não tinha mais carne para acompanhar aquele chouriço. Ai se eu tivesse umas entremeadas e uns pedacinhos de vitela! Chouriço e morcela assada com uns ovinhos estrelados no pão e batatas fritas... caraças! Não tinha pão, morcela e em boa verdade nem as batatas fritas. Chouriço com iogurte? Não me parece. Fiquei desanimado. Olhei para a porta do frigorífico e para além dos 5 ovos e variados frascos de maionese, mostarda dijon, ketchup e pickles... tinha um litro de leite e meia garrafa de Perrier. A coisa não estava a correr bem. Não ia conseguir comer nada de jeito em casa. Dei um gole na água e voltei a fechar o frigorífico. É claro que poderia fazer uma massa, pensava agora eu, enquanto vasculhava o armário. Latas de milho, feijão, grão, ervilhas, cogumelos, tomate pelado e diversos pacotes de massas variadas. Voltei ao frigorífico. Sim. Tinha pacotes de natas também. Os meus olhos brilhavam por esta altura, enquanto procurava ansiosamente algumas fatias de queijo para fazer uma pratada de massa. Nada. Não acredito. Deixei acabar o queijo também. Desisto. Vou sair.

Um combinado nº 10, um prato de esparregado e batatas e uma imperial. Foi tudo o que precisei para me sentir "aconchegadinho". Não costumo variar muito. Era este ou o nº 8 com um sumo de laranja natural. Já frequento esta casa desde miúdo. Desde que vinha com ele depois de passarmos na feira popular. Ele era um habitué e se bem me lembro era o único local aberto às horas que queríamos. Passados cerca de 15 anos continua tanto quanto sei a ser a única alternativa em Lisboa para uma refeição decente a partir das 2 da manhã.

Moral da história: tudo se resume a uma boa gestão. Gerir uma casa é como gerir um negócio. Uma má gestão de recursos resulta invariavelmente na perda de tempo e capital. Podemos ainda assumir que tempo é dinheiro pelo que este último é indubitavelmente o mais afectado. Ao sair de casa, perdi conforto, tempo e dinheiro.

E tudo isto porque este ano ainda não fui às compras.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Veni, vidi, vici...


O dia de hoje foi bem mais curto do que é habitual. Talvez justificado pela noite prolongada de ontem. Mas acerca dessa prefiro nem falar. E até nem é por não querer. É mais por nem saber por onde começar. Pelos "dinamites"? Digo apenas que mais uma vez as festas da empresa estiveram ao mais alto nível.

"Tens 2 meses para te preparar..." - disse ela a rir-se.

Cheirou-me a desafio. Percebi que se referia ao braço e à incapacidade de conseguir jogar nos próximos tempos. Em tom de brincadeira disse-lhe que já estava preparado há anos. Quanto muito poderia era passar 2 meses a aquecer. É claro que se ela for em ping-pong metade do que é em padel... estou bem tramado. Bom. Pensando melhor, é melhor ir treinando.

"Encontramo-nos no liceu francês." - disse eu.

Parece que ele lá conseguiu convencer o cunhado a aparecer com uma carrinha grande o suficiente para levarmos a mesa. Dito feito. Fomos os 3 à Decathlon, comprámos a mesa e ele ainda comprou uma raquete "especial de corrida". Verdade seja dita que até à data a raquete não tem abonado a favor.

Quando chegámos à Fullsix, começámos a montar a mesa e mandámos vir pizzas. A noite prometia ser longa. E quando acabámos de montar a mesa, a excitação era tal que nem a tirámos do lugar. Onde estava foi onde ficou. Pelo menos nos 3 ou 4 primeiros jogos. Num laivo de racionalidade e inteligência, acabámos por admitir que na entrada é que se jogava bem e assim foi. A nostalgia e o vício do jogo impelia-nos a continuar a jogar cada vez mais. Estávamos cansados mas não conseguíamos parar de jogar.

"Vá... este é mesmo o último!" - dizia ele pela sétima vez.

Há quem lhe chame a "mesa do César". Não deixo de achar piada e rir-me, mas acabo sempre a refutar a ideia. A mesa não é minha. É de todos. Mesmo daqueles que não contribuiram para ela. Combinam-se agora torneios, desafiam-se uns aos outros e há até quem tenha começado a almoçar sandes para chegar à mesa primeiro.

"Bom. Ainda bem que me convenceste a comprar uma rifa!" - disse ela enquanto segurava no filho.

Se é um sucesso? Acho que sim. Acho que olhando para trás todos estão contentes por se terem deixado levar na conversa da rifa a 1 euro. Ela pelo menos tem de estar visto que aquelas 2 rifas lhe valeram o primeiro prémio. Rio-me. Penso se ela não preferia ter abdicado do prémio e evitado toda a exposição a que esteve sujeita.

"Sr. César... se me der 20 de avanço vou lá acima jogar consigo." - disse ele.

Os próximos passos? O próximo objectivo? Acho que ainda temos um bom caminho a percorrer. Eles falam das mais variadas coisas, desde o saco de boxe à mesa de bilhar, passando pelas humildes setas ou até pelo mini-golfe. Até que ponto são ou não viáveis... isso logo se vê. Uma coisa é garantida: vou continuar a dar voz ao que todos querem e a tentar torná-lo possível. 

domingo, 14 de dezembro de 2008

Os amigos do garfo


Eram 10 da manhã. A chuva e o vento teimaram em aparecer, mas nem mesmo estes nos demoveram de um último passeio. Tínhamos tudo o que precisávamos: a companhia de quem já partilhou muitos e bons quilómetros e um roteiro gastronómico.

"Vai desejar salmonete? Robalo? Dourada?" - perguntou ele.

Já não o via há algum tempo. Não desde que foi morar para a Polónia. Da última vez que estivemos juntos fomos os três almoçar a Rio Maior. Depois veio o acidente... e nunca mais o vi. Foi bom vê-lo e dar-lhe um abraço. Foi bom ver que estava bem e pronto para mais curvas.

"Se quiserem... ficam em minha casa em Londres e depois seguem!" - disse ele.

Falávamos da viagem à Escócia. Não era uma viagem nova. Já tínhamos considerado esta viagem no ínicio do ano, assim como a viagem a Marrocos. Infelizmente, nenhuma das duas se concretizou. O nosso presidente ausentou-se durante uns meses e verdade seja dita que isso fez toda a diferença. Faltou-nos um elo agregador. Uma peça basilar do nosso motoclube. Os encontros semanais na sede passaram a ser mensais e os ânimos motociclísticos deixaram-se esfriar com o tempo. 

"Vai desejar salmonete? Bica? Carapau?" - perguntou ele.

Salmonete. Confesso que apesar da viagem em si me entusiasmar, o facto de a quererem fazer em apenas uma semana me deixou meio apreensivo. Ao contrário deles, não acredito que se faça facilmente. Ou melhor... não é que não se faça, mas será garantidamente uma viagem a "devorar" quilómetros. Uma média de mil quilómetros diários? Durante sete dias? Quero visitar lugares e conhecer pessoas, comer e beber bem, assimilar culturas, tirar fotografias, quero repousar... quero memórias e experiências. Não procuro uma viagem frenética cujo expoente máximo seja a vanglória dos tempos e quilómetros percorridos. Não. Para isso não contem comigo. Não estou para aí inclinado.

"Vai desejar salmonete? Espada branco? Ovas? Salmão?" - perguntou ele.

Salmonete. Pensei no sul de França. Lembrei-me de um filme que havia visto há uns meses atrás, que apesar de se passar na California, traduzia quase na íntegra aquilo que procurava. Fiquei de pesquisar sobre isso. Sim. Soa-me bem. Salmonete. Uma viagem de uma semana pelo sul de França, turismo rural, visitar os "chateaux" e os campos vinícolas, cultivar-me em provas de vinho e na famosa gastronomia da região. Tirar muitas fotografias e fazer muitos quilómetros. Aproveitar as curvas dos pirinéus. Salmonete. O melhor de dois mundos.

"Vai desejar salmonete? Choco? Polvo?" - perguntou ele.

Salmonete. Por esta altura interroguei-me no porquê de salmonete ser uma constante. As migas de coentros e beterraba estavam uma delícia. A batata cozida e a salada traziam harmonia à mesa. E os jarros de vinho? Um era demais e 1000 não chegavam! Sei que te estás a rir...

"Vai desejar..." - e tive de o interromper com um redondo não!

Penso agora na velha máxima "Live to ride, ride to live" e traço um novo paralelismo com o que julgo todos sentirmos. Conduzimos como vivemos. Não se equipara a importância do destino ao caminho percorrido para lá chegarmos. São as estradas que nos movem e conduzem. É nos trilhos sinuosos que encontramos prazer. Uma adrenalina que nos faz sentir vivos. É quando paramos que medimos na extasiada expressão de cada um a qualidade de um novo troço. E frequentemente voltamos a visitar terras e lugares por causa das suas "curvas".

"E vais com este tempo?" - perguntou ela.

E porque não?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

E o próximo vai para...



"Obrigado, obrigado, obrigado... obrigado, obrigado, obrigado!" - dizia ele baixinho para o microfone, à medida que fazia vénias para um público extático.

A noite não começava das melhores formas. O stress do costume. Nós a querermos sair e os pedidos de alterações por parte dos clientes a chegarem. Muitos haviam já descido para a tradicional cerveja, outros seguido o seu caminho... e nós os 5 havíamos ficado para trás. Havíamos... salvo seja. Confesso que fiquei mais pela companhia do que propriamente pelo trabalho. Já eles...

"Eles este ano esmeraram-se... ora aí está uma bela produção!" - disse ele.

Trabalho terminado, era hora de seguir para a festa. Eles já não tinham cabeça. Compreendi... mas foi pena. Tinha sido bom irem. Era uma forma de verem o nosso trabalho reconhecido.

"Alguém sabe como é que se vai para lá?" - perguntou ele.

Chegámos. Os gin tónicos começaram rodar. Foi bom encontrar caras há muito perdidas, um dedo de conversa e venha lá outro gin tónico. A música de Vangelis e o levantar das cortinas revelava agora um ringue de boxe. O ringue onde todas as agências de marketing se iriam defrontar na incessante busca pelo prémio final. O prémio da noite. O cinturão dourado.

"Nunca mais nos chamam? Mas afinal estávamos nomeados para quantos?" - perguntei eu.

Ela levantava os ombros e acenava com a cabeça indicando desconhecer. As nomeações continuavam. Os sapos desapareciam. E nós... nada.

"E os nomeados são..." - dizia ele alto e em bom som.

Era agora. O momento esperado. O momento pelo qual havíamos aguardado toda a noite. E não foi com surpresa que ele chegou. Que o acolhemos. Tínhamos todos trabalhado para isto.

"Eu não vou... achas? Não contribuí em nada para isto... mas compreendes, certo?!" - dizia ela com a sua habitual formalidade.

Disse-lhe que sim. Para ser sincero... não sei se compreendo. Pensava em mim mesmo um ano antes. Isso não me havia impedido de subir ao palco.

Ele continuava a desferir murros e pontapés no saco que haviam colocado para esse fim no meio do ringue. O que nos ríamos. A noite era nossa. 1 bronze, 1 prata e 7 ouros, entre eles o prémio da agência do ano 2008.

Parabéns Fullsix.

domingo, 23 de novembro de 2008

Shrek


Titan, Tiger, Manucha, Rambo, Safira, Mouse, Xira, Sabú, Caniço, Velo e Nino.

Entre outros, estes são os cães da minha vida. Pastores Alemães, Dobermans, Boxers, cruzados e 1 cachorrinho Rotweiller de que nunca me irei esquecer. E agora o Shrek. É certo que o Shrek não é meu... mas sendo dos meus sobrinhos, é como se fosse. Não deixa de ser da "família". O mais recente membro da família. Adoro cães. Aliás... amo cães. Custa-me actualmente não ter um mas assim que tiver espaço... é garantido.

Durante meses ouvi os meus sobrinhos a pedirem um cão e várias vezes ouvi o meu irmão e a minha cunhada resistirem à ideia. Finalmente, acabaram por ceder. Infelizmente, este pedido acabou por se revelar mais como um capricho do que propriamente um acto de necessidade, carência ou amor.

"Mas sabes... ainda assim acho que tá a ser bom para ele. Sabes que ele tem medo de cães, não sabes?" - perguntou ela.

Por acaso não. Não sabia. Não me recordo tão pouco de ele ter tido alguma experiência com algum cão que lhe pudesse ter incutido qualquer tipo de receio. Eu lembro-me perfeitamente de ter sido mordido duas vezes por cães em miúdo e nunca tive medo deles.

"Quando brincares com ele... dá-lhe uma recompensa!" - disse eu.

Eles brincavam agora com o Shrek no chão da cozinha. Por momentos foi como se não existisse mais nada. Deixei-me ficar sentado a olhar para os 3 a brincar com a garrafa de água. E sorri.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Hodgkin - parte I

Lembro-me, ainda que vagamente, de algumas das caras. Mas mais do que caras, lembro-me das circunstâncias que nos uniram, dos episódios que nos marcaram. Lembro-me dele mais do que de qualquer outro. Será por termos partilhado um quarto? Será por ter sido o meu primeiro amigo de cor? Ou seria por ter apenas uma perna? Pelos gritos de dor e sofrimento não foi... porque naquele sétimo piso, foram raras as noites em que não houvesse alguém a gritar por alguém.

Era noite e recordo-me nitidamente de estar cansado. Talvez já me devesse ter ido deitar. Mas era miúdo. E nessa altura tentava sempre ficar acordado até um pouco mais tarde. Fazia-me sentir adulto. Tinha nesta altura 12 anos. Entrei na sala e dirigi-me ao sofá de dois lugares. O meu irmão via televisão como habitualmente àquelas horas. Eu fazia o mínimo barulho possível para que ele não desse por mim. Talvez assim ele não me mandasse para a cama.

"Vai-te deitar. Amanhã é dia de colégio..." - dizia ele.

Normalmente fingia não ouvir. Ou então pedia para ficar apenas mais 5 minutos. Não nessa noite. Nessa noite eu não desci para ir ver televisão. Não desci por querer companhia. Não desci para ficar acordado até mais tarde. Não. E definitivamente estava longe de me querer tornar mais adulto. Entrei na sala. Sentei-me no sofá... e gradualmente deixei de respirar.

Lembro-me dele a gritar pelo meu nome, de colocar-me aos ombros, de descermos para o carro. Recordo-me de entrar nas urgências do hospital, de me colocarem numa maca, administrarem oxigénio, fechar os olhos... e acordar. Ainda estávamos na mesma noite. Não sei quanto tempo passou mas garantidamente era a mesma noite.

"O seu irmão teve um ataque de asma. Entretanto as análises ao sangue revelaram também estar com uma anemia por falta de ferro. Vamos mantê-lo esta noite por cá para fazermos mais algumas análises." - disse o médico.

Mal abria os olhos. Já há muito tempo que a minha asma não se manifestava. E nunca com esta violência. Havia deixado os vaporizadores e inaladores há já uns anos. Também já não frequentava o médico da asma. As aulas de natação tinham ficado para trás. Teoricamente a asma deveria ser problema do passado. Fiquei essa noite no hospital para observação...

"Houve uma complicação e infelizmente perdemos algumas das análises. Seja como for, existem alguns exames que gostaríamos de repetir, para clarificar uma possível situação." - disse o médico no dia seguinte.

Impressionante a forma como a nossa memória funciona. Consigo lembrar-me deste tipo de pormenores passados cerca de 17 anos. E quem me conhece sabe que eu mal me lembro do que jantei na noite anterior. Passados dois dias no hospital, chegou um diagnóstico para o qual o meu irmão não estava preparado. Não de novo. Não tão cedo.

"Como é que isso se pronuncia?" - perguntei.

Fui transferido para o IPO. Para o sétimo piso... departamento de pediatria. E foi aí que o conheci. Estava sempre a rir-se. E apesar de ter apenas uma perna, era dos que mais "corria" naquele corredor. Ficámos no mesmo quarto juntamente com mais 4 miúdos. Lembro-me mais das cicatrizes de cada um do que propriamente das feições. Nomes, esses, perderam-se com o tempo. Destes últimos não guardo recordações claras. Mas acho que é normal. Aquelas camas ao nosso lado tiveram uma rotatividade invejável. Talvez por não serem casos tão graves.
Esta era a minha nova casa. E nesta altura, eu ainda mal sabia o que esperar...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Jogar com tranquilidade



Sinto-me estranho. De há algum tempo para cá que me sinto diferente. O motivo, esse, não é nenhum mistério. É suspeita. E não se trata de um acto isolado mas sim de uma conjuntura. E apesar disso não encontro simplicidade no porquê. Apenas deixo de ser eu. Por momentos passo a ser esta outra pessoa de quem não gosto. Frio e estranho

"É impressão minha ou parece que acabaste de congelar?" - perguntou ele.

Talvez. Ela seguia agora na direcção oposta... alheia ao comentário. Agora que penso nisso apetece-me rir. Logo ele que não se conforma em ver-me de t-shirt na rua à noite. A verdade é que ele já me conhece o suficiente ao ponto de saber que congelei. Fico calado. Evito olhar para os olhos de seja quem for. E ali à frente de todos, o meu "eu" outrora extrovertido, esconde-se, subjugado pela inerente irracionalidade do que sinto. Sinto-me frio e estranho.

"Mas o que é que te passou pela cabeça para fazeres isso?" - perguntou ela.

Não sei. É que não sei mesmo. E ao mesmo tempo interrogo-me sobre o que acabei de fazer. Ela ria-se. Não vejo maldade nem animosidade no meu acto. Foi somente um desabafo. Repercussões? Não sei... é capaz de haver. Olho para o telemóvel na vã esperança de encontrar uma resposta. Uma palavra que seja. Continuo frio e estranho.

"Vais ter de assumir isso!" - disse ela.

Logo se vê. Não sou de fugir às minhas responsabilidades. Já adiá-las... essa é outra questão. Se assumo o que fiz e o que disse.... eventualmente. Mas neste momento julgo não estar com capacidade para confrontar o que quer que seja. O frio dissipa-se... a estranheza perdura.

"Tem calma. Amanhã falamos melhor e logo me contas." - disse ela.

Não! Tou cansado. A sério que estou. Já não me identifico com a causa. São as pequenas coisas que se vão acumulando que mais moem. Não vou compactuar com atitudes deste género. Não quero. Que falta de senso e consenso. E até que estava a começar bem. Por esta altura já nem me lembrava porque havia estado com frio ou sentido estranho.

"Gostei da tua atitude. Vá lá... alguém finalmente falou." - disse eu.

Ele olhou para mim e esboçou um sorriso. Ele sabia do que eu estava a falar. Quando entrei no balneário houve quem me abraçasse. Fiquei contente. E momentos depois sentia-me de novo parte de algo. Mas também foi sol de pouca dura. Já não sinto frio.

"Sinto-me estranho." - escrevi eu.

E a resposta que eu esperava... essa nunca chegou.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Salam Aleikum


É verdade que nem tudo correu como havíamos planeado... mas melhor também era difícil. Olhando para trás, ainda bem que ele não cancelou os bilhetes de avião. Os papéis da mota dele não chegaram a tempo e por isso teríamos ficado apeados. Mas pronto... tudo correu pelo melhor. Fomos com o resto do grupo e se assim não fosse também não teríamos tido as "tampinhas"!

Viagens de empresa são sempre óptimas. Seja pela viagem em si, pelos novos locais que conhecemos, seja por conhecer o outro lado das pessoas com quem trabalhamos. Acumulam-se e partilham-se histórias... e geram-se cumplicidades. Sentimos uma maior aproximação entre todos. E assim trabalhamos melhor.

A medina é um mundo de gente, confusão, cores, cheiros e sons sem igual. E acaba por ser um choque cultural apenas se o permitirmos. O povo marroquino é tão afável como destro nas artes de regatear. E o seu gosto pelo regateio é igualmente comparável à destreza com que se movem de motas e bicicletas por entre os também incautos transeuntes.

Ele já me tinha dito para levar coisas comigo para regatear. Levei o meu cachecol de Portugal. Nem sei quanto é que me custou... mas isso também não importava. Queria viver todas as experiências que fossem possíveis e acabei por consegui-lo. Comprei, regateei, vendi e troquei coisas. Comi e bebi o que Marrakesh tinha para me oferecer... pelo menos em 3 dias. O cachecol... esse, troquei-o por 3 sacos de chá de menta e 1 pedra para usar como after-shave. Estranho!

Agora... mal posso esperar para lá voltar. Mas da próxima vez vamos mesmo de mota!

sábado, 20 de setembro de 2008

Um dia na cozinha


Como havia prometido, estive a ensinar os meus sobrinhos a fazer compota e adorei a experiência. Quero também acreditar que eles gostaram desta experiência tanto como eu. Passámos os 3 umas horas engraçadas naquela cozinha, entre tirar fotografias, cortar a abóbora e raspar os limões. Confesso que eu próprio nunca havia feito compota. Estava meramente a seguir algumas dicas e direcções dadas por ela.

O objectivo: chegar ao fim da tarde com 2 boiões com compota de tomate e abóbora. Para depois lancharmos claro!

Começámos os preparativos, a arranjar a mesa, a cortar os frutos, a pesar o açúcar, etc. O que nos fartámos de rir. Apenas posso dizer que a compota de tomate ficou demasiado rija e a de abóbora queimou. Mas não foi por isso que desistimos. Saí de novo em direcção ao supermercado e rapidamente estávamos a fazer a segunda panela de compota de abóbora. E esta última ficou muito melhor que a de tomate.

Se caires de um cavalo a melhor coisa que tens a fazer é voltar a montá-lo. Se apanhares um susto debaixo de água a melhor coisa que tens a fazer é voltar a mergulhar. Nós queimámos a compota de abóbora e não quisémos deixar para outra altura uma segunda tentativa.

Aprendemos com os erros. A compota de tomate ficou rija porque a deixámos demasiado tempo ao lume e a de abóbora queimou porque o lume estava demasiado alto. A última compota que fizémos ficou mesmo no ponto e isto porque foi fruto dos erros que havíamos cometido antes.

Errar é bom... pensem nisso.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Eu sei que sou um T


Eu devia ter entre 5 e 7 anos de idade. O meu irmão já tinha um Atari 2000 e ofereceram-lhe um Sinclair Spectrum 48k. Eu também queria um computador. Para jogar jogos claro. E foi o meu pai que me ofereceu o meu primeiro computador. Um Timex 2048. Era lindo... muito mais louco que o Spectrum 48k do meu irmão. Não tenho a certeza disto que vou dizer mas acho que aquele Timex, que ainda guardo e funciona, foi comprado em 2ª mão... e é claro que por si só não constitui problema. Não tenho nada contra comprar equipamento bom em segunda mão. Mas a verdade é que o meu computador tinha uma avaria e raramente conseguia carregar jogos nele. Ironia do destino... esta foi a melhor avaria de toda a minha vida, pela qual não voltaria atrás...

A minha história assemelha-se em muito com a história do meu povo. A história repete-se. 500 anos antes os Portugueses partiram para o mar em procura de novos mundos e novas rotas comerciais. E sejamos francos... por muito que achemos que somos descendentes de valorosos exploradores e navegadores, estes não o fizeram por serem corajosos ou destemidos... fizeram-no porque não tinham alternativa. Um país rodeado por Espanha e mar... e Espanha não era opção. Se queríamos sobreviver, teríamos de entrar pelo mar. E comigo foi o mesmo. O meu computador não carregava jogos... a minha única alternativa foi programar nele.

Vamos então assumir que eu tinha 7 anos de idade. Tinha o meu primeiro computador que não carregava jogos e um manual do computador que explicava os princípios básicos de programação em "BASIC". Comecei a lê-lo e a fazer pequenas rotinas. Delirava com o que conseguia fazer. E desde então soube que quando crescesse queria ser programador de jogos. Acho que este foi o meu único sonho. Nunca quis ser bombeiro, nem polícia, nem astronauta. Sim... queria poder voar e cheguei a rezar muitas vezes ao menino Jesus para me dar umas asinhas de anjo que sobrassem lá no céu. Cheguei a prometer que não contava a ninguém mas acho que nem isso o convenceu.

Lembro-me vagamente de ter encontrado um livro de programação lá em casa, que seria certamente do meu irmão, e mais tarde comprei outro de gráficos 3D em "BASIC". Anos passaram-se e apareceu o primeiro computador lá em casa. Um Compaq Presario 433. Eu queria programar, instalar coisas, ligar-me a BBS, experimentar... e fui abafado e castrado pela ignorância daquela casa. Ignorância essa que perdura.

Por referência de um grande amigo, comprei aos meus 14 anos um livro intitulado "Tricks of the Game Programming Gurus", o qual devorei, apesar de não conhecer a linguagem "C++" nem o conceito de programação orientada a objectos. No secundário tive 3 anos de informática onde aprendi "GW-BASIC" e "Pascal". E apesar de ser dos melhores alunos nesta matéria, ainda não me sentia conformado. Aos 19 anos de idade comprei o livro "Teach Yourself C in 21 Days" o qual li de fio a pavio, sem nunca ter um computador onde testar o que ia aprendendo. Nesta altura servia à mesa num hotel em Londres e vivia num pequeno quarto alugado com outras 7 pessoas.

Foi só aos 23 que voltei a pegar em qualquer coisa relacionada com informática. E por mão do meu irmão que tanto insistiu comigo para que voltasse a estudar.

"Toma... tá aqui um folheto da escola ali de cima. Eles têm lá cursos de computadores e aquelas coisas que gostas. Vai até lá e inscreve-te. Mas faz qualquer coisa... pelo menos tira o 12º ano!" - disse ele.

Só lhe posso agradecer. Se naquele dia ele não o tivesse feito, provavelmente hoje eu ainda estaria a trabalhar como estafeta ou cozinheiro.

Os anos passaram-se. Terminei o meu curso técnico-profissional de informática. Comecei a trabalhar como administrador de redes, o que não poderia estar mais longe daquilo que queria fazer, mas era uma porta de entrada para este mundo. E foi essa porta que me levou à empresa em que estou. Sim Randy... tive sorte!

Hoje em dia trabalho como "Web Developer" numa das maiores agências de marketing online em Portugal. Trabalho com criativos, designers, pessoal de video, 3D, flash e outros programadores como eu. Adoro o ambiente, os meus colegas e o meu trabalho diário. Vibro com os desafios, com as novidades e com a inovação. Amo a cultura de meritocracia que se vive e a postura de uma empresa multi-nacional. É provavelmente o mais próximo que estarei de uma empresa que cria jogos. O mais próximo do meu trabalho de sonho.

Hoje comprei um livro. Chama-se "XNA 2.0: Game Programming Recipes". Não sei o dia de amanhã... mas não vou desistir do meu sonho.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Óscar à trois


Juro que fiquei emocionado. Consegui esconder o quão excitado estava com a ideia ao deixar transbordar somente um ligeiro sorriso. Levantei-me e dei-lhe um fervoroso aperto de mão e voltei a sentar-me. A minha cabeça borbulhava com ideias, com ramificações daquela ideia base, daquele conceito. 

"Genial!" - escrevi eu.

Estava no "papo". Era aquilo que procurávamos. Era aquela a ideia que nos iria levar a um desfecho vitorioso. Tive logo a certeza... e ele também.

"E tu minha menina vais-te juntar a nós..." - disse-lhe em tom de brincadeira, deixando claro que um "não" estaria fora de questão.

A verdade é que ela se tornou uma pessoa muito especial para mim. Uma pessoa que profissionalmente muito admiro e respeito. E tê-la na equipa dava-me automaticamente outro alento.

Ele já nem conseguia pensar noutra coisa... e em boa verdade, nem eu. Combinámos ficar os 3 no escritório até mais tarde nessa noite para discutirmos ideias e conceitos. E é nestas alturas que percebemos o poder da motivação das pessoas. E do que são capazes quando tomam os projectos como seus. Fosse por outro motivo e talvez não tivessemos ficado de bom grado várias horas em "brainstorming".

Aqui tínhamos 3 pessoas de áreas diferentes num universo empresarial de 5 áreas... mas com um denominador comum: derivados de "IT". Achámos que deveríamos explorar as outras 2: marketing e design.

Olhando para trás, encontro realização na proporção que a ideia tomou, na volta que soubemos dar ao conceito inicial, a todos os novos segmentos e ramificações que surgiram e ao potencial que se encontrava por trás de cada um deles. O BluEgo poderia ser uma realidade. E todos havíamos feito parte disso.

Empenho. Entrega. Dedicação. Não faltou nenhum... e isso apenas se pode traduzir em vitória!

Mas a vida não são apenas vitórias. Existem também derrotas. E também elas assumem um papel importante na vida. É importante saber perder. É importante perder para compreendermos o valor de ganhar. Torna-nos humildes. Desafia-nos a melhorar e a crescer. Torna-nos mais competitivos.

Lembro-me de forma um tanto ou quanto vaga de alguém uma vez me ter dito que ao contratar um executivo, preferia aquele que já tivesse falhado uma ou mais vezes ao invés de um que apenas tivesse conhecido o sucesso. A explicação era simples: o primeiro já sabia o que evitar e de como evitá-lo... e já o segundo podia apenas ter tido sorte até então e ainda não estar devidamente preparado. Neste seguimento recordo-me também de ter ouvido que falhar faz parte do processo de atingir objectivos. A descoberta científica de uma nova cura para o cancro representa uma ínfima fracção das tentativas feitas nesse sentido. Foi preciso falhar muito para conseguir chegar lá. Foi preciso não ter medo de falhar e continuar a tentar. Foi preciso aceitar um possível falhanço como um novo avanço.

"Oi... sabes quem ganhou?! A equipa de motion. Achas isto normal?!" - disse ela assim que atendi o telemóvel.

"Well, a ideia era boa... tem imenso potencial. Se era o tipo de coisa que estaríamos à procura... não sei. Mas não me choca..." - disse eu, sabendo perfeitamente que ela estaria a brincar.

"Estúpido, estou a gozar... GANHÁMOS!!!" - gritava ela, compensando o ruído ensurdecedor que o metro fazia ao chegar à estação.

A noite começara bem e abeirava-se agora a segunda vitória do dia. A multidão juntava-se. Ouvia-se "A Portuguesa" e os vendedores ambulantes promovendo um patriotismo interesseiro. Os cachecóis dançavam ao sabor do vento, ao som dos rios de cerveja e do crepitar das febras. Na práctica esta era a primeira vez que ia ver um jogo de futebol ao estádio. E Portugal ia dar uma "coça" à Dinamarca. Acho que não preciso de falar mais do jogo. Se o resultado foi justo? Não...

"Epá... o futebol tem destas coisas e até ao apito final é tudo jogo." - disse ele.

Se calhar tivemos sorte. Mas uma coisa é certa. Não temos medo de falhar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Portugaru San

A primeira experiência de que me lembro com o sexo oposto foi no mínimo estranha. Já nem me lembro do nome dela. Lembro-me da rejeição, da humilhação e de ser preterido a favor dele... mas do nome dela, nem por isso. Mas ainda me lembro do que me chamou.

"Chinesinho!!!" - gritou ela. - "Eu não quero brincar com o chinesinho..."

Eu deveria ter os meus 5 ou 6 anos de idade. Nessa altura, as nossas famílias constumavam passar os verões juntas, alternando entre a casa de uns e outros, entre Vilamoura e Vale Navio, entre a nossa casa e a dele. Gostava mais de Vilamoura... mas a piscina dele era bem maior! E foi lá que a conheci... e com tenra idade, a percepção das linhas faciais.

"Realmente o rapaz tem traços chineses. Diz-me meu menino... tens algum familiar chinês?!" - perguntaram-me a dada altura.

A verdade é que não. Não tanto quanto saiba. E não pensem com isto que tal questão me possa afligir. Mas de facto tanto a mãe do meu pai como a minha própria mãe, ambas aparentavam os mesmos traços e certamente foi delas que adquiri os meus. Mas como disse... não, não tinha.

"Chinesinho limpópó!!!" - troçava.

Estávamos agora em 1993. Sentia-me nervoso. E não era caso para menos. Não só era minha tia com também era a primeira vez que ia ao teatro. E tinha medo de não compreender. Tinha medo de com isso a desiludir. Ela que na altura seria das poucas pessoas do lado da família da minha mãe com quem me identificava. Porque era diferente. Porque contra as adversidades da vida havia vingado. Porque a admirava. Porque era inteligente, linda e simpática... e porque era minha tia.

Lembro-me de uma sala escura. De um foco de luz. Uma capela. E no meio da sala lá estava ela. Impávida e serena, a aguardar... o Senhor Portugal em Tokushima.

Hoje em dia não nos falamos. Não por não respondermos aos convites que já não existem. Não por nos ignorarmos nos encontros que não acontecem. Mas porque não nos procuramos.

Às vezes lembro-me dela. Lembro-me da história dos cogumelos frescos e do arroz frito. Lembro-me da minha pequena prima. De um terraço sobre o rio. Lembro-me daquele bar cheio de outros artistas. De quando nos cruzávamos nas imediações da casa da minha avó... e pouco mais. Mas quando me lembro dela, lembro-me de tudo isto...  e lembro-me com carinho. Com pena. Com mágoa.

No outro dia veio à minha memória. Não sei porquê, mas liguei-lhe. O número estava certo. A indiferença na voz que se fez ouvir não. Foi estranho. Não falava com ela há anos. Pensei que fosse ficar contente. Foi uma daquelas trocas de palavras vazias e desprovidas de qualquer pertinência. Palavras de ocasião que servem para nada mais que quebrar o silêncio que as precede. Pergunto-me quem terá abandonado quem. Pergunto-me se deverei deixar certas relações ficarem onde elas pertencem... na nossa memória. Onde apesar de permanecerem felizes espelham nada mais que uma mentira. Outra mentira...

Fiquei triste mas revalidei o que no fundo já sabia. Que trilhamos caminhos diferentes. Que atribuir culpabilidades sobre quem estragou uma relação não só não a trás de volta como também não nos faz sentir melhor. Aconteceu. A relação morreu. E agora resta-me viver com isso... ou esquecer.

Opto por esquecer...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sangue de Lory

Sou uma pessoa de contrastes. E não se entendam contrastes por desequilíbrios... se bem que admito que eles existam. Pretendo com isto dizer que sou de carácter, sentir e ser moldado por uma vida de opostos. Um contraste de genes e instrução. Sou filho de gente pobre educado por ricos. Educado a ser temente a Deus e dele nem vislumbre. Amado como se ama um filho e abandonado com quem viu em mim um fardo.

Mas tornou-me mais forte... carente, mas forte. Sensível... mas com uma dose de frieza.

Sou sangue de gente humilde que nunca conheci, com quem pouco convivi e de quem me comecei a aproximar. E mesmo acerca destes, pouco sei, porque a vida assim o quis. Mas de todos, houve para mim quem se destacasse... e foi a mãe do meu pai. A minha avó. A minha adorável, linda, cheia de vida... avó. Que faleceu no ano passado e que através da minha tia, me deixou uma pulseirinha.

E o destino, o fado, a fatalidade e a sina seguiram o seu rumo.

Quis o destino que nos voltássemos a encontrar. Como que me permitindo uma última oportunidade. Um doce amargo. Como que sabendo os dias que se avizinhavam e a fatalidade que adviria. Quis o fado que eu pudesse sentir a felicidade de abraçar e reclamar o meu direito. O direito de sangue. De poder sentir o que todas as famílias devem sentir e que eu nunca tive. E a minha avó era toda ela fado. E o destino concedeu-me esse último ano da sua vida... para que pudesse relembrar com ternura estes encontrados sentimentos e chorar por todos os anos anteriores que os podia ter tido. No fim, a fatalidade levou-a.

Mas a sina, atenta, deu-me mais do que poderia pedir. Num gesto de complacência deu-me uma "bebé tia". Deu-me uma pessoa que tanto deu à minha avó, que tanto reteve dela, que em tanto se assemelha e que eu não quero perder... que não quero largar mais. Nem à pulseirinha.

"Acho que não me roubaram nada... não estou a ver nada em falta... esperem... a pulseirinha da minha avó!!!"

Depois de vasculhar o quarto, não encontrei a pulseirinha, que ainda se encontrava no mesmo envelope em que a "bebé tia" havia colocado e escrito o meu nome. Era capaz de jurar que estava na prateleira ao pé dos livros.

"De acordo com o que vimos no andar de cima e o que lá roubaram, trata-se de um grupo de crime organizado que pensávamos já se ter ido embora. Já apanhámos 6 delas... mas pelos vistos voltaram!" - disse o agente, enquanto recolhia impressões digitais da ombreira.

Ele disse "delas"? Depois de algumas explicações percebi. Eu fui assaltado por um grupo de romenas.... noutro contexto eu até teria ficado contente, até porque não me tinham levado nada.

"Oh colega... chegue aqui. O que é que lhe parece? Parecem impressões de uma criança." - disse o outro agente.

A minha cabeça continuava a vaguear pelas imagens de belas, exóticas, altas e esguias morenas... mas rapidamente foram substituídas por uma criança ao colo de ciganas velhas, gordas e vestidas de preto. Consegui com sucesso remover as novas impressões gráficas que me atormentavam e voltar ao meu fetiche pessoal. Se fui assaltado por "miúdas"... então que fossem boas!

Agora realmente tudo fazia sentido. Não me levaram o portátil, nem a máquina fotográfica nem tantas outras coisas que aqui tinha e que acreditava serem as primeiras coisas a desaparecer. Mas até então eu também desconhecia que existiam grupos de crime organizado femininos. Sabem o que roubaram no andar de cima? Roupa, sapatos, anéis, porta-chaves, canetas... e dinheiro, claro.

Mais tarde, enquanto me arranjavam a porta da frente, resolvi dar uma arrumadela no quarto. Sabem o que descobri? Claro que foi a pulseirinha. E sabem como me senti? Pois... isso eu também já não consigo colocar por palavras. 

Com isto chego a uma conclusão: se é para existirem assaltantes... então que sejam todas mulheres!!!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Filhos de uma Croata


Nem queria acreditar no que estava a ler, mas a mensagem era clara e sucinta... não existia espaço para erro ou confusão. Tinha acontecido. O desmoronar de ideias deu lugar a um estado de automatismo que me levou ao gabinete dele. À medida que me deslocava só conseguia pensar no como, quando e porquê de ter acontecido. Mas tinha que lhe dar qualquer tipo de satisfação antes de sair. Depois de o fazer, voltei à minha sala onde já comentavam se aquilo estaria mesmo a acontecer... se era de facto verdade. Infelizmente era.

Nunca o caminho para casa me tinha parecido tão moroso... e contudo mal me lembro dele. O meu pensamento ia de encontro à minha perda. Aos anos de trabalho e recordações. Ao suor e custo que havia empregue em cada uma das peças. Porque ao contrário do que se poderia esperar, não se tratava apenas de uma perda material... tratava-se de ferir a minha liberdade, de corromper a minha independência e violar a minha privacidade. Imaginei um cenário assolador. Esperei o pior.

Assim que cheguei, estranhei a tranquilidade que se vivia na rua e na entrada do prédio, alheias ao sucedido, como se de qualquer outro dia tratasse. A verdade é que por momentos me fez sentir que tudo estava bem. Tratara-se de um erro, de um mal-entendido ou até de uma partida de mau gosto. Como estava longe da verdade. O interior do prédio revelou-se diferente... e fez-me voltar à realidade que temia.

À medida que subia as escadas, deixei de pensar... estava em branco. Recordo-me vagamente de passar por elas. Diziam algo que na altura me foi impossível decifrar. A minha cabeça estava ao rubro e prestes a sucumbir. E foi um longo silêncio que culminou com o abrir da porta.

"César, a tua casa foi assaltada e a minha também." - dizia a  mensagem de texto que havia recebido cerca de 30 minutos antes.

À medida que varria o quarto com os olhos, fazia o contraste entre o que encontrava e o que esperava que tivesse sido tomado, como se de uma "checklist" tratasse. Devo ter estado cerca de 2 minutos, calado, focado no que me haviam roubado...

"Nada... não acredito... não me roubaram nada... nada mesmo!!!"

E aqui foi a vez da tempestade dar lugar à calmaria. Uma calmaria exterior. Não deixava de sentir uma enorme impotência e frustração. Mas estes são sentimentos passivos.

Há coisas que nunca havemos de conseguir explicar. E existem diversos pormenores neste "assalto" que me causam alguma espécie. Segundo a polícia, vários "gangs" de crime organizado croata e romeno, têm operado nesta área. O mesmo "modus operandi". E não estranham o facto de não terem levado nada...

"Sabe... estes fulanos apenas andam à procura de dinheiro e ouro. Não lhes interessa serem apanhados com peças incriminatórias nem tão pouco têm receptores para determinados produtos. Acredite que não acho estranho... vejo com cada coisa!"

Não sei até que ponto estas palavras me tranquilizaram. Acho que nada mesmo. A verdade é que continuo com medo. Sinto-me inseguro. Vulnerável. Ouço ruídos pouco usuais lá fora. Mas também nunca estive em casa sem música ou televisão... por isso também não sei quais são os ruídos habituais mesmo.

"Eles hoje pelo menos já não devem voltar..." - diz um dos vizinhos.
"Olhe que cá para mim isto foi só o início... a seguir somos nós." - diz uma das vizinhas.

O burburinho virou opinião. A troca de opiniões deu aso a conversa. E a vizinhança juntava-se à medida que chegava. E tão depressa tudo começou como terminou. As portas fechavam-se e muitas pessoas jantaram hoje mais tarde que o habitual. E a vida deles normalizou...

A minha porta continua aberta... não consigo fechá-la. Vou tentar ficar acordado.

domingo, 31 de agosto de 2008

Pipocas inteligentes

"Gosto de filmes que me façam pensar."

Pode até parecer estranho dado o contexto. Afinal de contas, estávamos no intervalo daquele que acabou por ser a nossa 3ª escolha, por questões que se prenderam com "timmings" e problemas de ordem técnica. Diga-se também de passagem que qualquer um destes 3 filmes requeria a carga intelectual de uma criança de 6 anos. Mas eu percebi o que ela quis dizer...

"Gosto de filmes com substância, que me façam reter algo no fim... gosto de filmes com uma moral por trás." - disse ela.

Não valia a pena. Nunca lhe iria conseguir vender outro filme do Vin Diesel. Eu sabia o que ela estava a querer dizer e não podia deixar de em parte concordar. Mas também sabia que tínhamos graus de exigência diferentes. Havíamos gerado diferentes expectativas sobre o que um filme deveria ser e isso condicionava as nossas escolhas.

"Ele não gosta de filmes... ele devora filmes. É um consumidor de filmes." - disse ele em tom de gozo.

Sorri. Ele não deixava de ter razão. A verdade é que adoro filmes e sou capaz de passar horas a vê-los, independentemente do género, enredo, elenco ou até mesmo do número de vezes que já os vi. Vejo filmes como forma de entretenimento e é isso que eles são para mim... uma fonte de passar o tempo, distracção e divertimento. E como tal não sou esquisito. Para ser sincero, chego a ter alturas em que fujo a sete pés de filmes inteligentes.

Há muitos anos atrás, perguntei ao meu irmão que tipo de jogos de computador é que ele preferia, apesar de saber perfeitamente que ele não era sequer grande apreciador de nada que tivesse a ver com um computador. Para quem não conhecer o meu irmão, fica a nota de que é 8 anos mais velho do que eu, licenciado em Direito, e que acredita piamente que os computadores apenas vieram piorar a qualidade de vida do Homem. Mas adiante. Depois de ele me dizer o nome de um jogo de futebol e outro de fórmula 1, repliquei com jogos de estratégia e "role playing games", através dos quais seria possível gerir intrincados mundos virtuais, com uma infinita panóplia de caminhos a percorrer, personagens fantásticas por conhecer, regras a respeitar... e ele respondeu-me algo de que nunca mais me esqueci:

"Cesarinho... para te ser sincero, os meus estudos e trabalho já me requerem que passe a totalidade dos meus dias a pensar e a esforçar-me intelectualmente. Quando estou em casa, num momento de lazer, opto por não fazê-lo. Também se pode retirar algum proveito da estupidificação."

Na altura não percebi bem... pensei que lá estava o paleio de advogado a esquivar-se à questão. Acho que depois destes anos todos já percebo o que o meu irmão quis dizer.

Tenho pouco mais de 300 filmes... originais claro! Ninguém que pirateie filmes afirmaria ter tão poucos. Seria de imediato alvo de chacota. Todas as pessoas que conheço que "sacam" filmes da "net" falam sempre na casa dos milhares ou em "gigas":

"Epá... tou a sacar agora a terceira temporada daquela série de que nem me lembro do nome nem do que se trata e que provavelmente acabarei por nunca ver, visto que mesmo que parasse agora, nunca teria tempo numa vida útil para ver tudo o que já saquei... e são apenas 5 gigas!!!"

Faz-me rir... mas não tenho nada contra. Aliás, longe de mim estar aqui com falsos moralismos depois de tudo o que já "saquei". Nada disso. Apenas acho piada aos coleccionadores de "gigas".

"Mas tu compras filmes? Para quê? Aposto que 80% dos filmes que tens só os vês uma vez... qual é o interesse de ver um filme de novo quando já se conhece o final?"

É complicado discutir com alguém cujo discurso faz todo o sentido. Responder-lhe com algum encadeamento coerente e racional é penoso. A resposta... bom essa seria tudo menos racional. Compro filmes porque faço colecção. Porque faz tanto sentido como ter centenas de isqueiros, selos, cromos ou vinhetas de teatro. E porque prefiro ver filmes em casa do que no cinema. Sem comparação possível. Se há coisa que me irrita durante um filme é o irritante som das caixas de pipocas, dos comentários labregos e das risadas em momentos chave de filmes dramáticos. E hoje não foi excepção. Mas valeu a companhia... e todo o dia que os 3 deixámos para trás.

sábado, 30 de agosto de 2008

A Paço e Paço

Há algum tempo atrás, ele falou-me de um livro e de um autor que me chamou a atenção, apesar da piscina teimar em distrair-me. A água estava gelada, tinha cancro pancreático, o sol estava alto, tratava-se da sua última aula, o vento estava incomodativo, rodava à volta dos seus sonhos de criança e eu tinha-me esquecido de trazer a toalha. É claro que por esta altura a minha cabeça fixou-se em usar a toalha do outro antes que ele voltasse!

"A sorte... é quando a oportunidade... se encontra com a preparação." - disse ele de forma pausada e em tom de citação.

E foi quando me deitei na toalha do outro que consegui falar com ela, que em bom costume, me deliciou com inúmeras dicas gastronómicas. Ainda não consegui pôr nenhuma em prática... mas mal posso esperar. Acho é que vou ter de lhe ligar outra vez! Uma coisa é certa. Para quem ainda tinha a cabeça a "descansar" dos intensos fins-de-semanas de festivais, foi demasiada informação em tão curto espaço de tempo.

Fui para casa e repetia para mim mesmo: "Carnegie Mellon... Murphy Richards... Randy Pausch... Hoovis ou Fermin..." - não necessariamente nesta ordem, mas de forma ininterrupta até ter conseguido tomar nota.

A verdade é que, apesar de provavelmente ter parecido distraído, tanto o livro como a compota de abóbora haviam realmente captado a minha atenção. De tal forma que três dias depois tinha comprado o livro na FNAC e 2 boiões de vidro no IKEA para a compota que tenciono fazer com os meus sobrinhos. Um deles vai ser para ela. Um dos boiões... não sobrinhos!

Quanto ao livro... li, ri, chorei, reflecti e identifiquei-me com o autor... e recomendo vivamente. Para quem está à espera que eu coloque aqui o nome do autor assim como do livro, gostaria de vos deixar com um trecho interessante e que a meu ver se aplica:

"Os obstáculos não estão lá para nos impedir de conseguir atingir o que queremos. Estão lá apenas para somente deixar passar aqueles que realmente querem e fazem por isso. Ou seja... estão lá para impedir os outros!"

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Os homens também choram


Quinta-feira. Como dita a instituição, existindo "quorum", juntam-se 2 ou mais "compinchas motards" para bebericar e divagar sobre as suas aventuras e desventuras motociclísticas. Hoje éramos 3... logo havia "quorum"!

Até aqui nada de invulgar. À hora habitual, lá estávamos no local do costume para dar início a uma noite que acabaria por se revelar diferente. E diferente foi o tema de conversa, que fugindo às habituais temáticas sobre o opulento busto de fulana ou às curvilíneas nádegas de sicrana, nos rematou para a religião, família... e amizade. E talvez o motivo pelo qual nos foi tão fácil dissertar sobre esta matéria foi porque os 3 sabíamos que estávamos perante amigos.

Amigos...

Palavra que no quotidiano empregamos com tal frequência que com o tempo acabou por cair na banalidade. Mas não era este o caso. Éramos e somos 3 amigos com "A" grande.

"O que é para ti um amigo?" - perguntou ele.

Esta questão caiu-me como uma bomba. Eu sei o que é um amigo. Mas falar sobre isso... como posso eu dizer o que é um amigo? Como posso eu por meras palavras descrever um sentimento tão nobre e substancioso como a amizade? Definir amizade é como definir amor... hercúlea tarefa! Mas poderá ser então a amizade uma derivação do amor?

"É uma pessoa que eu sei que estará lá por mim se precisar e por quem eu quero estar." - respondi. Pensando agora melhor no assunto acho que deveria ter acrescentado:

"É também uma pessoa por cuja companhia procuro e que quero que me procure, porque é nessa necessidade de reciprocidade, que se define o grau da relação."

A verdade é que poderia ter respondido exactamente da mesma forma se me tivessem perguntado sobre o amor. Sim, estaria incompleto... mas não incorrecto. Teria de falar de paixão também... mas essa agora seria outra história.
"E a família... consideras como amigos?" - perguntou o outro.

A verdade é que a família não se escolhe.

"Não... mas o meu irmão sim porque não é meu irmão." - disse, explicando de seguida o porquê da afirmação e clarificando a confusão.

"E quantos amigos tens?"- perguntou ele.

Ora aqui estava uma pergunta tão pertinente como traiçoeira. Se dissesse que tinha muitos estaria a desvalorizar os que considero amigos... se dissesse que tinha poucos, a verdade é que estaria a mentir. E assim que pensei nisso senti-me afortunado. Porque acreditava de facto ter mais do que a esmagadora maioria das pessoas afirma ter.

"15 talvez... cerca de 15... não sei... talvez menos... aqui pelo menos tenho a certeza que estão 2!" - retorqui. Não foi um número pensado mas foi sincero. Ambos responderam acreditar terem menos de 10...

A verdade é que eu estava perante 2 amigos de "A" grande. Eu sabia isso e eles também. Tentei em vão ocultar o quão emocionado fiquei e como tal não pude deixar de soltar uma lágrima ou duas. Mas os meus não foram os únicos olhos lacrimejantes...


PS: no final de escrever este "post" abri o notepad e escrevi o nome de todos os que considero meus amigos. São 11... afinal não estava assim tão longe!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Você me chamou de roliça?!


As expectativas eram altas. Havia semanas que tanto um como o outro me tentavam convencer de que este era um dos melhores de Lisboa e verdade seja dita que dada a temática, não foi preciso muito. Quem me conhece sabe que pode sempre contar comigo para uma boa garfada. E o que começou como um simples jantar de quarta-feira acabou por se tornar num ritual.

Chegara o dia do bife verde!

Foram muitas as histórias, gargalhadas e confidências que se acumularam ao longo das semanas seguintes. Demasiadas para nos lembrarmos de todas... suficientes para nos fazer voltar e recordar. Recordar e reviver o "meio" bife. Recordar o gin tónico que atenua a sua espera, o tagliatelle que o precede, o silêncio que o acolhe e as Quintas de Cabriz que o acompanham... somente equiparáveis com o convívio que se vive. Ingredientes intrínsecos à experiência gastronómica que apenas pode ser compreendida pelos que lá estão.

E à medida que escrevo lembro-me dos momentos que deram lugar às memórias. E aquele "meio" bife ganha voz...
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