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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O derradeiro tio


Pois é. Parece que vou ser tio novamente e desta vez é uma menina. Neste momento conto com 3 sobrinhos e 1 sobrinha. Infelizmente ainda não conheci a minha sobrinha mas essa é uma falha que pretendo remediar em Março. A balança começa assim a equilibrar-se.

"Quero ver que tipo de brinquedos e de conversas vais ter com uma menina!" - escreveu ela seguido de uma risada.

Pois. Também não sei. Apenas tenho experiência prática em ser tio de 2 rapazes e a chave do sucesso no meu relacionamento com eles é ser uma criança grande. E como alguém uma vez disse, a diferença entre um homem e um miúdo, é o preço dos brinquedos. Para mim é muito fácil entrar numa loja de brinquedos e perder-me. De comprar-lhes coisas como se o fizesse para mim. De os ajudar a passar níveis de jogos na playstation e de jogar futebol.

Uma rapariga... bom. Também há outras coisas que sei fazer. Posso ajudá-la com os trabalhos de casa, ensiná-la a nadar ou a andar de bicicleta. Posso ir jogar ténis com ela ou jogar playstation. E pode até ser que goste de andar de mota. Pelo menos a mãe dela gosta. Agora que penso nisso vamos poder fazer muita coisa juntos.

Pois é minha querida. Vais ver que vai ser giro. Fico à tua espera.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Bi

Já te disse que te amo? Da falta que me fazes?

Não me pude despedir de ti. Eles não deixaram. Sabes isso não sabes? Fiquei uns dias em casa dele e foi tão estranho quando ele me foi buscar para retornar a uma casa sem ti. Sabes o que ele me disse? Sabes como foi quando me contaram?

Vou ser egoísta. Preciso de ser. Eu tinha 11 anos. Sabes o que me fizeste? Sabes como me deixaste? Deixaste-me sozinho... sim, sozinho. Ainda demorou um tempo até perceber isso. Mas eu nunca tive uma família. Só te tive a ti. Elas bem o disseram. Eu ouvi mas não escutei. Ou não quis escutar. Não percebia porque elas diziam que ele me ia enviar para o meu pai. Como assim? Não fazia sentido nenhum. A minha família não era esta?

Sabias que a dada altura já não me interessava viver mais? Sabias que quase desisti? Percebeste o que me ia na alma? No coração? O quanto a vida não fazia sentido sem ti? Odeio ter-me habituado. Odeio não precisar tanto de ti como antigamente. Sinto que em muitas coisas parei naquele tempo.

Hoje tenho outra família. Aquela que deveria ter tido desde sempre. Passaram-se anos mas finalmente encontrei-os. E encontrei a minha querida avó. Estás com ela? Toma conta dela que também a adoro. Tive tão pouco tempo para estar com ela. Ela era como tu. Uma santa. Uma querida. Um amor de pessoa. Tomem conta uma da outra. Eu sei que vocês davam-se bem.

Sabias que ele me bateu? Por querer ir aos anos do meu melhor amigo? Sabias que me atirou à cara ter perdido um negócio quando eu ainda estava de cama a recuperar da quimioterapia? Por me ter ido buscar ao hospital? Ele fez-te o mesmo? Viste como ele nos tratou? Viste o que ele fez? Não percebo. Juro que não percebo. Não percebo como estavas com ele.

Lembras-te que passados uns dias ouvi o teu sino? Eras tu? Estavas lá? Como quis que estivesses apesar do assustador que isso possa soar. Às vezes ainda te procuro na escuridão. Atraso o acender da luz para ver se apareces mas nunca estás lá. Procuro a fé que tinhas e que perdi única e exclusivamente para me sentir mais próximo de ti.

Já raramente rezo. Há uns tempos rezei. Pelo pai dela e pela minha avó. E tal como quando rezei por ti, não resultou. Sinto-me de novo um filho abandonado. Sabes que o odeio não sabes? Que por muito que o tente ignorar ou fingir que não existe... continuo a precisar dele para nele depositar o meu ódio. Neles a bem dizer.

Agora apercebo-me que te estou a tratar por "tu". É estranho. Nunca aconteceu em vida e provavelmente nunca viria a acontecer. Mas neste momento não me faz sentido ser de outra forma. Importas-te? Sinto-me mais perto de ti assim...

No outro dia chorei. Não sei porquê. Não conseguia sequer falar. Estava a tomar banho e comecei a chorar. A pensar em ti. A pensar em nós. Ela estava lá para me confortar e acho que ninguém o teria feito melhor que ela. Ela compreende-me. Ela sabe. Eu contei-lhe. Deixei-me cair na banheira enquanto enchia e perdi noção do tempo. Queria que voltasses.

Às vezes penso em ti. Penso na falta que me fazes. Estás triste comigo? Estás desiludida? Tenho medo da resposta. Tento viver com o que me ensinaste, com os princípios morais e cívicos com que me educaste e receio nem sempre viver de acordo com as expectativas. Penso na pessoa em que me teria tornado se não me tivesses deixado.

Tantas vezes senti a tua presença. Tantas vezes senti que continuavas a tomar conta de mim. Que continuas a olhar por mim. Mas isso não me chega. Quero poder abraçar-te. Dar-te um beijinho de manhã antes de sair de casa.

Lembras-te quando me ias buscar à natação? Levantavas-me e punhas-me em cima do banco e enrolavas-me na toalha. E quando estava seco davas-me sempre aquele tupperware azul com mini palmiers ou sortidos húngaros. Ou quando me preparavas o pequeno-almoço. Pensal. E quando me deitaste pimenta na lingua por ter dito um palavrão? Lembro-me que nunca mais repeti... enquanto foste viva.

Já viste os teus netos? Estão lindos não estão? Sabias que te vejo neles? E no pai... sim no teu filho. No outro dia fui a casa dele e vi uma foto de vocês os dois. Como foi bom ver a tua cara de novo. Estavas linda tal como sempre te recordei. Lembras-te de quando íamos para a missa e caíste? E eu não te consegui levantar e chorei? Lembro-me também da nossa viagem a Londres, do Madame Tussauds, do hospital e das tuas amigas.

Preciso de te pedir desculpa. Preciso de te dizer que estou arrependido de não te ter ido ver mais vezes ao quarto. De não te ter dito vezes suficientes que te amava e que nunca te poderia retribuir tudo o que fizeste por mim. Por me ter deixado ir abaixo e não ter seguido o caminho que querias que tivesse seguido. Vês? Já estou a chorar outra vez. Fazes-me tanta falta.

Tenho saudades tuas. Amo-te.

domingo, 23 de novembro de 2008

Shrek


Titan, Tiger, Manucha, Rambo, Safira, Mouse, Xira, Sabú, Caniço, Velo e Nino.

Entre outros, estes são os cães da minha vida. Pastores Alemães, Dobermans, Boxers, cruzados e 1 cachorrinho Rotweiller de que nunca me irei esquecer. E agora o Shrek. É certo que o Shrek não é meu... mas sendo dos meus sobrinhos, é como se fosse. Não deixa de ser da "família". O mais recente membro da família. Adoro cães. Aliás... amo cães. Custa-me actualmente não ter um mas assim que tiver espaço... é garantido.

Durante meses ouvi os meus sobrinhos a pedirem um cão e várias vezes ouvi o meu irmão e a minha cunhada resistirem à ideia. Finalmente, acabaram por ceder. Infelizmente, este pedido acabou por se revelar mais como um capricho do que propriamente um acto de necessidade, carência ou amor.

"Mas sabes... ainda assim acho que tá a ser bom para ele. Sabes que ele tem medo de cães, não sabes?" - perguntou ela.

Por acaso não. Não sabia. Não me recordo tão pouco de ele ter tido alguma experiência com algum cão que lhe pudesse ter incutido qualquer tipo de receio. Eu lembro-me perfeitamente de ter sido mordido duas vezes por cães em miúdo e nunca tive medo deles.

"Quando brincares com ele... dá-lhe uma recompensa!" - disse eu.

Eles brincavam agora com o Shrek no chão da cozinha. Por momentos foi como se não existisse mais nada. Deixei-me ficar sentado a olhar para os 3 a brincar com a garrafa de água. E sorri.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Hodgkin - parte I

Lembro-me, ainda que vagamente, de algumas das caras. Mas mais do que caras, lembro-me das circunstâncias que nos uniram, dos episódios que nos marcaram. Lembro-me dele mais do que de qualquer outro. Será por termos partilhado um quarto? Será por ter sido o meu primeiro amigo de cor? Ou seria por ter apenas uma perna? Pelos gritos de dor e sofrimento não foi... porque naquele sétimo piso, foram raras as noites em que não houvesse alguém a gritar por alguém.

Era noite e recordo-me nitidamente de estar cansado. Talvez já me devesse ter ido deitar. Mas era miúdo. E nessa altura tentava sempre ficar acordado até um pouco mais tarde. Fazia-me sentir adulto. Tinha nesta altura 12 anos. Entrei na sala e dirigi-me ao sofá de dois lugares. O meu irmão via televisão como habitualmente àquelas horas. Eu fazia o mínimo barulho possível para que ele não desse por mim. Talvez assim ele não me mandasse para a cama.

"Vai-te deitar. Amanhã é dia de colégio..." - dizia ele.

Normalmente fingia não ouvir. Ou então pedia para ficar apenas mais 5 minutos. Não nessa noite. Nessa noite eu não desci para ir ver televisão. Não desci por querer companhia. Não desci para ficar acordado até mais tarde. Não. E definitivamente estava longe de me querer tornar mais adulto. Entrei na sala. Sentei-me no sofá... e gradualmente deixei de respirar.

Lembro-me dele a gritar pelo meu nome, de colocar-me aos ombros, de descermos para o carro. Recordo-me de entrar nas urgências do hospital, de me colocarem numa maca, administrarem oxigénio, fechar os olhos... e acordar. Ainda estávamos na mesma noite. Não sei quanto tempo passou mas garantidamente era a mesma noite.

"O seu irmão teve um ataque de asma. Entretanto as análises ao sangue revelaram também estar com uma anemia por falta de ferro. Vamos mantê-lo esta noite por cá para fazermos mais algumas análises." - disse o médico.

Mal abria os olhos. Já há muito tempo que a minha asma não se manifestava. E nunca com esta violência. Havia deixado os vaporizadores e inaladores há já uns anos. Também já não frequentava o médico da asma. As aulas de natação tinham ficado para trás. Teoricamente a asma deveria ser problema do passado. Fiquei essa noite no hospital para observação...

"Houve uma complicação e infelizmente perdemos algumas das análises. Seja como for, existem alguns exames que gostaríamos de repetir, para clarificar uma possível situação." - disse o médico no dia seguinte.

Impressionante a forma como a nossa memória funciona. Consigo lembrar-me deste tipo de pormenores passados cerca de 17 anos. E quem me conhece sabe que eu mal me lembro do que jantei na noite anterior. Passados dois dias no hospital, chegou um diagnóstico para o qual o meu irmão não estava preparado. Não de novo. Não tão cedo.

"Como é que isso se pronuncia?" - perguntei.

Fui transferido para o IPO. Para o sétimo piso... departamento de pediatria. E foi aí que o conheci. Estava sempre a rir-se. E apesar de ter apenas uma perna, era dos que mais "corria" naquele corredor. Ficámos no mesmo quarto juntamente com mais 4 miúdos. Lembro-me mais das cicatrizes de cada um do que propriamente das feições. Nomes, esses, perderam-se com o tempo. Destes últimos não guardo recordações claras. Mas acho que é normal. Aquelas camas ao nosso lado tiveram uma rotatividade invejável. Talvez por não serem casos tão graves.
Esta era a minha nova casa. E nesta altura, eu ainda mal sabia o que esperar...

sábado, 20 de setembro de 2008

Um dia na cozinha


Como havia prometido, estive a ensinar os meus sobrinhos a fazer compota e adorei a experiência. Quero também acreditar que eles gostaram desta experiência tanto como eu. Passámos os 3 umas horas engraçadas naquela cozinha, entre tirar fotografias, cortar a abóbora e raspar os limões. Confesso que eu próprio nunca havia feito compota. Estava meramente a seguir algumas dicas e direcções dadas por ela.

O objectivo: chegar ao fim da tarde com 2 boiões com compota de tomate e abóbora. Para depois lancharmos claro!

Começámos os preparativos, a arranjar a mesa, a cortar os frutos, a pesar o açúcar, etc. O que nos fartámos de rir. Apenas posso dizer que a compota de tomate ficou demasiado rija e a de abóbora queimou. Mas não foi por isso que desistimos. Saí de novo em direcção ao supermercado e rapidamente estávamos a fazer a segunda panela de compota de abóbora. E esta última ficou muito melhor que a de tomate.

Se caires de um cavalo a melhor coisa que tens a fazer é voltar a montá-lo. Se apanhares um susto debaixo de água a melhor coisa que tens a fazer é voltar a mergulhar. Nós queimámos a compota de abóbora e não quisémos deixar para outra altura uma segunda tentativa.

Aprendemos com os erros. A compota de tomate ficou rija porque a deixámos demasiado tempo ao lume e a de abóbora queimou porque o lume estava demasiado alto. A última compota que fizémos ficou mesmo no ponto e isto porque foi fruto dos erros que havíamos cometido antes.

Errar é bom... pensem nisso.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Portugaru San

A primeira experiência de que me lembro com o sexo oposto foi no mínimo estranha. Já nem me lembro do nome dela. Lembro-me da rejeição, da humilhação e de ser preterido a favor dele... mas do nome dela, nem por isso. Mas ainda me lembro do que me chamou.

"Chinesinho!!!" - gritou ela. - "Eu não quero brincar com o chinesinho..."

Eu deveria ter os meus 5 ou 6 anos de idade. Nessa altura, as nossas famílias constumavam passar os verões juntas, alternando entre a casa de uns e outros, entre Vilamoura e Vale Navio, entre a nossa casa e a dele. Gostava mais de Vilamoura... mas a piscina dele era bem maior! E foi lá que a conheci... e com tenra idade, a percepção das linhas faciais.

"Realmente o rapaz tem traços chineses. Diz-me meu menino... tens algum familiar chinês?!" - perguntaram-me a dada altura.

A verdade é que não. Não tanto quanto saiba. E não pensem com isto que tal questão me possa afligir. Mas de facto tanto a mãe do meu pai como a minha própria mãe, ambas aparentavam os mesmos traços e certamente foi delas que adquiri os meus. Mas como disse... não, não tinha.

"Chinesinho limpópó!!!" - troçava.

Estávamos agora em 1993. Sentia-me nervoso. E não era caso para menos. Não só era minha tia com também era a primeira vez que ia ao teatro. E tinha medo de não compreender. Tinha medo de com isso a desiludir. Ela que na altura seria das poucas pessoas do lado da família da minha mãe com quem me identificava. Porque era diferente. Porque contra as adversidades da vida havia vingado. Porque a admirava. Porque era inteligente, linda e simpática... e porque era minha tia.

Lembro-me de uma sala escura. De um foco de luz. Uma capela. E no meio da sala lá estava ela. Impávida e serena, a aguardar... o Senhor Portugal em Tokushima.

Hoje em dia não nos falamos. Não por não respondermos aos convites que já não existem. Não por nos ignorarmos nos encontros que não acontecem. Mas porque não nos procuramos.

Às vezes lembro-me dela. Lembro-me da história dos cogumelos frescos e do arroz frito. Lembro-me da minha pequena prima. De um terraço sobre o rio. Lembro-me daquele bar cheio de outros artistas. De quando nos cruzávamos nas imediações da casa da minha avó... e pouco mais. Mas quando me lembro dela, lembro-me de tudo isto...  e lembro-me com carinho. Com pena. Com mágoa.

No outro dia veio à minha memória. Não sei porquê, mas liguei-lhe. O número estava certo. A indiferença na voz que se fez ouvir não. Foi estranho. Não falava com ela há anos. Pensei que fosse ficar contente. Foi uma daquelas trocas de palavras vazias e desprovidas de qualquer pertinência. Palavras de ocasião que servem para nada mais que quebrar o silêncio que as precede. Pergunto-me quem terá abandonado quem. Pergunto-me se deverei deixar certas relações ficarem onde elas pertencem... na nossa memória. Onde apesar de permanecerem felizes espelham nada mais que uma mentira. Outra mentira...

Fiquei triste mas revalidei o que no fundo já sabia. Que trilhamos caminhos diferentes. Que atribuir culpabilidades sobre quem estragou uma relação não só não a trás de volta como também não nos faz sentir melhor. Aconteceu. A relação morreu. E agora resta-me viver com isso... ou esquecer.

Opto por esquecer...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sangue de Lory

Sou uma pessoa de contrastes. E não se entendam contrastes por desequilíbrios... se bem que admito que eles existam. Pretendo com isto dizer que sou de carácter, sentir e ser moldado por uma vida de opostos. Um contraste de genes e instrução. Sou filho de gente pobre educado por ricos. Educado a ser temente a Deus e dele nem vislumbre. Amado como se ama um filho e abandonado com quem viu em mim um fardo.

Mas tornou-me mais forte... carente, mas forte. Sensível... mas com uma dose de frieza.

Sou sangue de gente humilde que nunca conheci, com quem pouco convivi e de quem me comecei a aproximar. E mesmo acerca destes, pouco sei, porque a vida assim o quis. Mas de todos, houve para mim quem se destacasse... e foi a mãe do meu pai. A minha avó. A minha adorável, linda, cheia de vida... avó. Que faleceu no ano passado e que através da minha tia, me deixou uma pulseirinha.

E o destino, o fado, a fatalidade e a sina seguiram o seu rumo.

Quis o destino que nos voltássemos a encontrar. Como que me permitindo uma última oportunidade. Um doce amargo. Como que sabendo os dias que se avizinhavam e a fatalidade que adviria. Quis o fado que eu pudesse sentir a felicidade de abraçar e reclamar o meu direito. O direito de sangue. De poder sentir o que todas as famílias devem sentir e que eu nunca tive. E a minha avó era toda ela fado. E o destino concedeu-me esse último ano da sua vida... para que pudesse relembrar com ternura estes encontrados sentimentos e chorar por todos os anos anteriores que os podia ter tido. No fim, a fatalidade levou-a.

Mas a sina, atenta, deu-me mais do que poderia pedir. Num gesto de complacência deu-me uma "bebé tia". Deu-me uma pessoa que tanto deu à minha avó, que tanto reteve dela, que em tanto se assemelha e que eu não quero perder... que não quero largar mais. Nem à pulseirinha.

"Acho que não me roubaram nada... não estou a ver nada em falta... esperem... a pulseirinha da minha avó!!!"

Depois de vasculhar o quarto, não encontrei a pulseirinha, que ainda se encontrava no mesmo envelope em que a "bebé tia" havia colocado e escrito o meu nome. Era capaz de jurar que estava na prateleira ao pé dos livros.

"De acordo com o que vimos no andar de cima e o que lá roubaram, trata-se de um grupo de crime organizado que pensávamos já se ter ido embora. Já apanhámos 6 delas... mas pelos vistos voltaram!" - disse o agente, enquanto recolhia impressões digitais da ombreira.

Ele disse "delas"? Depois de algumas explicações percebi. Eu fui assaltado por um grupo de romenas.... noutro contexto eu até teria ficado contente, até porque não me tinham levado nada.

"Oh colega... chegue aqui. O que é que lhe parece? Parecem impressões de uma criança." - disse o outro agente.

A minha cabeça continuava a vaguear pelas imagens de belas, exóticas, altas e esguias morenas... mas rapidamente foram substituídas por uma criança ao colo de ciganas velhas, gordas e vestidas de preto. Consegui com sucesso remover as novas impressões gráficas que me atormentavam e voltar ao meu fetiche pessoal. Se fui assaltado por "miúdas"... então que fossem boas!

Agora realmente tudo fazia sentido. Não me levaram o portátil, nem a máquina fotográfica nem tantas outras coisas que aqui tinha e que acreditava serem as primeiras coisas a desaparecer. Mas até então eu também desconhecia que existiam grupos de crime organizado femininos. Sabem o que roubaram no andar de cima? Roupa, sapatos, anéis, porta-chaves, canetas... e dinheiro, claro.

Mais tarde, enquanto me arranjavam a porta da frente, resolvi dar uma arrumadela no quarto. Sabem o que descobri? Claro que foi a pulseirinha. E sabem como me senti? Pois... isso eu também já não consigo colocar por palavras. 

Com isto chego a uma conclusão: se é para existirem assaltantes... então que sejam todas mulheres!!!

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O filho do meu pai


Já dizia o povo que "filho de peixe sabe nadar". E o que parece lógico, óbvio e acima de tudo simples na sua composição, não deixa contudo de me intrigar. Talvez por outra das minhas características que tanto me afecta: a imutável incapacidade de aceitar que algumas coisas são realmente simples e lineares e que não encerram misteriosos enredos à espera de serem descortinados. Que por vezes não existem complexas conspirações, significados escondidos ou sentimentos camuflados. Que um "sim" é sempre um "sim" e um "não" não é um "talvez".

"Filho de peixe sabe nadar"...

Interrogo-me sobre o porquê da expressão. O que a originou e baseado em quê. Sim, claro que conheço o sentido da expressão. Mas a lógica diz-me que um rebento de peixe será inequivocamente outro peixe e que, por conhecimento de causa ou por casual experiência, nadar lhe é inato. E não me refiro àquele peixe em concreto por ser descendente do outro, mas pelo fulcral pormenor de que ele próprio é um peixe! E é aqui que começam as ramificações do problema. Nadar é algo que pertence a esta espécie em particular e que é comum a todas as suas sub-espécies e aos elementos que a compõem. Não é nada que se passe através da educação, por qualquer processo de aprendizagem ou que se possa herdar por qualquer outro veículo que não os genes do mesmo, que esses sim ditam a sua competência. E consequente sobrevivência.

Nadar é portanto uma apetência inerente ao colectivo e não ao indivíduo que a herda. De onde se retira que a expressão apenas pode ser aplicada de forma generalizada e não direccionada.

"Filho de peixe sabe nadar"...

O meu pai é cozinheiro e eu cozinheiro fui... e adoro cozinhar. Se cozinho bem ou se os meus pseudo-cozinhados sequer se aproximam da "haute cuisine" do meu pai, essa já é outra história. O meu pai é louco por motas e aqui escuso de traçar paralelismo. Todavia é curioso ter começado a andar de mota antes dele. Também o facto de ele ter sido instrutor de mergulho e eu mergulhar é apenas mais um elo de ligação. Um elo aberto, visto que até hoje, nunca mergulhámos juntos!

"Filho de peixe sabe nadar"...

Certo. Bate certo. Faz sentido. Onde está então o drama? Onde está a questão, o dilema, a tal conspiração que se esconde à espreita por trás de cada uma destas afirmações? Apenas estou a provar que o provérbio tem motivo de ser. Mas também nunca disse o contrário. Apenas que me intriga.

Pois... o problema reside em nunca ter vivido com o meu pai. Em nunca ter tido uma relação pai-filho convencional. Em nunca ter convivido ao longo da minha infância e adolescência com o meu pai e por conseguinte, nunca ter absorvido os seus gostos, apetências, inclinações... ou sonhos. Por não ter tido a sua força nem as suas direcções. Pela distância que nos separa. Por nos termos acabado por tornar pessoas tão iguais. E tudo isto porque partilhamos os mesmos genes? Como seria se tudo tivesse sido diferente? Seríamos ainda iguais? Iria acarinhá-lo? Iria sentir-me mais próximo? Desconheço. Mas uma coisa sei... o filho do meu pai sabe nadar!
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