Eram 10 da manhã. A chuva e o vento teimaram em aparecer, mas nem mesmo estes nos demoveram de um último passeio. Tínhamos tudo o que precisávamos: a companhia de quem já partilhou muitos e bons quilómetros e um roteiro gastronómico.
"Vai desejar salmonete? Robalo? Dourada?" - perguntou ele.
Já não o via há algum tempo. Não desde que foi morar para a Polónia. Da última vez que estivemos juntos fomos os três almoçar a Rio Maior. Depois veio o acidente... e nunca mais o vi. Foi bom vê-lo e dar-lhe um abraço. Foi bom ver que estava bem e pronto para mais curvas.
"Se quiserem... ficam em minha casa em Londres e depois seguem!" - disse ele.
Falávamos da viagem à Escócia. Não era uma viagem nova. Já tínhamos considerado esta viagem no ínicio do ano, assim como a viagem a Marrocos. Infelizmente, nenhuma das duas se concretizou. O nosso presidente ausentou-se durante uns meses e verdade seja dita que isso fez toda a diferença. Faltou-nos um elo agregador. Uma peça basilar do nosso motoclube. Os encontros semanais na sede passaram a ser mensais e os ânimos motociclísticos deixaram-se esfriar com o tempo.
"Vai desejar salmonete? Bica? Carapau?" - perguntou ele.
Salmonete. Confesso que apesar da viagem em si me entusiasmar, o facto de a quererem fazer em apenas uma semana me deixou meio apreensivo. Ao contrário deles, não acredito que se faça facilmente. Ou melhor... não é que não se faça, mas será garantidamente uma viagem a "devorar" quilómetros. Uma média de mil quilómetros diários? Durante sete dias? Quero visitar lugares e conhecer pessoas, comer e beber bem, assimilar culturas, tirar fotografias, quero repousar... quero memórias e experiências. Não procuro uma viagem frenética cujo expoente máximo seja a vanglória dos tempos e quilómetros percorridos. Não. Para isso não contem comigo. Não estou para aí inclinado.
"Vai desejar salmonete? Espada branco? Ovas? Salmão?" - perguntou ele.
Salmonete. Pensei no sul de França. Lembrei-me de um filme que havia visto há uns meses atrás, que apesar de se passar na California, traduzia quase na íntegra aquilo que procurava. Fiquei de pesquisar sobre isso. Sim. Soa-me bem. Salmonete. Uma viagem de uma semana pelo sul de França, turismo rural, visitar os "chateaux" e os campos vinícolas, cultivar-me em provas de vinho e na famosa gastronomia da região. Tirar muitas fotografias e fazer muitos quilómetros. Aproveitar as curvas dos pirinéus. Salmonete. O melhor de dois mundos.
"Vai desejar salmonete? Choco? Polvo?" - perguntou ele.
Salmonete. Por esta altura interroguei-me no porquê de salmonete ser uma constante. As migas de coentros e beterraba estavam uma delícia. A batata cozida e a salada traziam harmonia à mesa. E os jarros de vinho? Um era demais e 1000 não chegavam! Sei que te estás a rir...
"Vai desejar..." - e tive de o interromper com um redondo não!
Penso agora na velha máxima "Live to ride, ride to live" e traço um novo paralelismo com o que julgo todos sentirmos. Conduzimos como vivemos. Não se equipara a importância do destino ao caminho percorrido para lá chegarmos. São as estradas que nos movem e conduzem. É nos trilhos sinuosos que encontramos prazer. Uma adrenalina que nos faz sentir vivos. É quando paramos que medimos na extasiada expressão de cada um a qualidade de um novo troço. E frequentemente voltamos a visitar terras e lugares por causa das suas "curvas".
"E vais com este tempo?" - perguntou ela.
E porque não?


