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sábado, 27 de dezembro de 2008

O cubo mágico


Nunca tive um cubo de Rubik. Lembro-me do meu irmão ter um e de me terem dado um magic puzzle de Rubik. Parece-me lógico evitar dar a mesma prenda a 2 irmãos. Mas não se resumiu a isso. Sempre fomos diferentes. Ele teve aulas de viola e eu de piano. Ele frequentou aulas de futebol e judo e já eu andava no basket e na natação. Ele tinha um estojo com ilustrações de Fórmula 1 e eu do Moto GP. Ele quis e seguiu Direito e eu quis seguir Engenheria. Até aqui fui diferente ao não seguir nada. Não admira a falta de pontos em comum. Ele casou e teve dois lindos miúdos e já eu... bom, ainda ando a resolver algumas camadas do meu cubo.

Este Natal ofereceram-me um cubo mágico e com ele, uma alusão à vida.

Muitas vezes pensei sobre a vida. Sobre o meu percurso nesta nossa longa caminhada. E verdade seja dita que é dos momentos atribulados que melhor me recordo. Creio que é por serem os momentos mais marcantes. Ou pelo menos para mim foram. E agora que penso nisso, por si só, esta afirmação já diz muito acerca da minha vida. É através dos obstáculos que ultrapassamos, das divergências que fechamos em concordância e dos desafios que falhamos, que aprendemos e crescemos. Sim, também estes últimos, porque não aprendemos apenas com os nossos sucessos mas também com as nossas falhas. Porque a lição raramente se encontra no resultado mas na forma como lá chegamos. Nas alternativas que colocamos. Nas opções em aberto. Na postura com que enfrentámos cada uma delas. No raciocínio. Na pertinácia com que as acatamos.

Não são muitas as pessoas que me conhecem na íntegra. Mas gosto de me dar a conhecer. E sinto cada vez mais essa necessidade à medida que as pessoas se vão tornando mais importantes para mim.

"O quê? A sério? Não sabia... e tens seguido isso ou tenho de te dar um par de estalos?" - disse ele.

Gosto de conhecer pessoas. E para isso procuro gerar oportunidades que me levem a conhecê-las um pouco melhor. De promover convívio. Sem expectativas. Não é disso que se trata. Não procuro um fim mas sim um meio. E vivo e tento viver uma coisa de cada vez. Quem me conhece sabe isso. Quem não me conhece só vai compreendê-lo depois de me conhecer. Para me conhecer de facto... vai ter mesmo de querer.

E nestes momentos, encaixamos mais uma peça no seu lugar. Não sabemos se ela está no seu lugar certo nem até quando lá permanecerá. Se vamos precisar de mudá-la de sítio. A importância daquela peça é relativa. Apenas se pode medir no seu próprio tempo e espaço e a sua constância passa para segundo plano. O que faz sentido hoje poderá não fazer amanhã. Não existe linearidade na forma como resolvemos o cubo. O cubo é orgânico. Vive. E cada passo que damos representa um novo passo no interminável mar de possibilidades para uma potencial solução e abre-se um infindável leque de novas opções. Num universo tridimensional que conta também com a 4ª dimensão para a chegada da solução.

A própria forma como jogamos com o cubo muda consoante a nossa idade, a nossa experiência e acima de tudo, a forma como apreciamos o jogo em si. Fosse mais novo e estaria tentado em fazer batota. Poderia procurar um guião que me ajudasse. Poderia dar a alguém que o jogasse por mim. Ou poderia até desmontar o cubo e montá-lo de novo a meu proveito. Às vezes cedemos e desistimos. Queremos respostas. Ansiosos por entrar naquela última camada, procuramos caminhos rápidos e fáceis. Fazemos batota. Hoje em dia jogo-o com outro olhar. Mais sereno. Mais calmo. Mais calejado. Gosto de jogá-lo e não tenho pressa em chegar ao fim.

Sim, tem várias cores. Sim tem várias soluções possíveis. Ou melhor. Diversas equações para uma única solução possível. Porque solução existe apenas uma. Aquele momento em que numa última rotação conseguimos colocar as 6 faces homógeneas. É esse o seu desfecho. É esse o desfecho da vida. E como não é nessa única certeza que temos na vida que reside a nossa alegria, então podemos apenas assumir que os prazer de viver se encontra nessas equações. Nesse caminho a percorrer. Nos tais obstáculos que existem não para nos assustar nem para gerar receio mas apenas para nos testar e recordar o porquê de estarmos ali. Para nos lembrar que merecemos estar à altura.

Sou paciente. Sei esperar. Sei lutar pelo que quero. A vida ensinou-me isso e muito mais. Ensinou-me também que a aprendizagem nunca cessa. Que as desilusões e as frustrações nunca terminam mas que não devemos desistir por medo de passar por elas. Nem o medo de falhar. Tornam-nos mais fortes. E enquanto experiências de vida enriquecem-nos e permitem-nos saborear de outra forma todas as outras alegrias. Já há muito tempo que deixei de ter medo. Que aprendi que sou eu quem determina o meu destino.

O medo não é a linha ténue entre os obstáculos e a minha realização pessoal. É a experiência. É a dualidade entre a vontade e perseverança face à história e ao cansaço. É a experiência que acarreta o pragmatismo. Que mata a cor e que deambula em graus de cinzento. E é essa luta constante que se confunde com a falta de vontade genuína. Que assume outras caras. Que confunde.

Comecei a jogar. É uma primeira camada do jogo. Conquistar uma face. O quadrado branco. Depois disso logo se verá.

Na vida só há uma certeza. A solução. Se esse grau de incerteza pode ser caracterizado como esperança? Duvido. Esperança requer fé. E não necessito de fé para com convicção afirmar que a vida é incerta. Que a esperança me ajude a viver com essa incerteza? Isso sim... concordo. 

Infelizmente nem tudo na vida é comparável ao cubo. Tento jogá-lo bem, apreciando cada rotação e não me focando tanto em terminar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Bi

Já te disse que te amo? Da falta que me fazes?

Não me pude despedir de ti. Eles não deixaram. Sabes isso não sabes? Fiquei uns dias em casa dele e foi tão estranho quando ele me foi buscar para retornar a uma casa sem ti. Sabes o que ele me disse? Sabes como foi quando me contaram?

Vou ser egoísta. Preciso de ser. Eu tinha 11 anos. Sabes o que me fizeste? Sabes como me deixaste? Deixaste-me sozinho... sim, sozinho. Ainda demorou um tempo até perceber isso. Mas eu nunca tive uma família. Só te tive a ti. Elas bem o disseram. Eu ouvi mas não escutei. Ou não quis escutar. Não percebia porque elas diziam que ele me ia enviar para o meu pai. Como assim? Não fazia sentido nenhum. A minha família não era esta?

Sabias que a dada altura já não me interessava viver mais? Sabias que quase desisti? Percebeste o que me ia na alma? No coração? O quanto a vida não fazia sentido sem ti? Odeio ter-me habituado. Odeio não precisar tanto de ti como antigamente. Sinto que em muitas coisas parei naquele tempo.

Hoje tenho outra família. Aquela que deveria ter tido desde sempre. Passaram-se anos mas finalmente encontrei-os. E encontrei a minha querida avó. Estás com ela? Toma conta dela que também a adoro. Tive tão pouco tempo para estar com ela. Ela era como tu. Uma santa. Uma querida. Um amor de pessoa. Tomem conta uma da outra. Eu sei que vocês davam-se bem.

Sabias que ele me bateu? Por querer ir aos anos do meu melhor amigo? Sabias que me atirou à cara ter perdido um negócio quando eu ainda estava de cama a recuperar da quimioterapia? Por me ter ido buscar ao hospital? Ele fez-te o mesmo? Viste como ele nos tratou? Viste o que ele fez? Não percebo. Juro que não percebo. Não percebo como estavas com ele.

Lembras-te que passados uns dias ouvi o teu sino? Eras tu? Estavas lá? Como quis que estivesses apesar do assustador que isso possa soar. Às vezes ainda te procuro na escuridão. Atraso o acender da luz para ver se apareces mas nunca estás lá. Procuro a fé que tinhas e que perdi única e exclusivamente para me sentir mais próximo de ti.

Já raramente rezo. Há uns tempos rezei. Pelo pai dela e pela minha avó. E tal como quando rezei por ti, não resultou. Sinto-me de novo um filho abandonado. Sabes que o odeio não sabes? Que por muito que o tente ignorar ou fingir que não existe... continuo a precisar dele para nele depositar o meu ódio. Neles a bem dizer.

Agora apercebo-me que te estou a tratar por "tu". É estranho. Nunca aconteceu em vida e provavelmente nunca viria a acontecer. Mas neste momento não me faz sentido ser de outra forma. Importas-te? Sinto-me mais perto de ti assim...

No outro dia chorei. Não sei porquê. Não conseguia sequer falar. Estava a tomar banho e comecei a chorar. A pensar em ti. A pensar em nós. Ela estava lá para me confortar e acho que ninguém o teria feito melhor que ela. Ela compreende-me. Ela sabe. Eu contei-lhe. Deixei-me cair na banheira enquanto enchia e perdi noção do tempo. Queria que voltasses.

Às vezes penso em ti. Penso na falta que me fazes. Estás triste comigo? Estás desiludida? Tenho medo da resposta. Tento viver com o que me ensinaste, com os princípios morais e cívicos com que me educaste e receio nem sempre viver de acordo com as expectativas. Penso na pessoa em que me teria tornado se não me tivesses deixado.

Tantas vezes senti a tua presença. Tantas vezes senti que continuavas a tomar conta de mim. Que continuas a olhar por mim. Mas isso não me chega. Quero poder abraçar-te. Dar-te um beijinho de manhã antes de sair de casa.

Lembras-te quando me ias buscar à natação? Levantavas-me e punhas-me em cima do banco e enrolavas-me na toalha. E quando estava seco davas-me sempre aquele tupperware azul com mini palmiers ou sortidos húngaros. Ou quando me preparavas o pequeno-almoço. Pensal. E quando me deitaste pimenta na lingua por ter dito um palavrão? Lembro-me que nunca mais repeti... enquanto foste viva.

Já viste os teus netos? Estão lindos não estão? Sabias que te vejo neles? E no pai... sim no teu filho. No outro dia fui a casa dele e vi uma foto de vocês os dois. Como foi bom ver a tua cara de novo. Estavas linda tal como sempre te recordei. Lembras-te de quando íamos para a missa e caíste? E eu não te consegui levantar e chorei? Lembro-me também da nossa viagem a Londres, do Madame Tussauds, do hospital e das tuas amigas.

Preciso de te pedir desculpa. Preciso de te dizer que estou arrependido de não te ter ido ver mais vezes ao quarto. De não te ter dito vezes suficientes que te amava e que nunca te poderia retribuir tudo o que fizeste por mim. Por me ter deixado ir abaixo e não ter seguido o caminho que querias que tivesse seguido. Vês? Já estou a chorar outra vez. Fazes-me tanta falta.

Tenho saudades tuas. Amo-te.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Jogar com tranquilidade



Sinto-me estranho. De há algum tempo para cá que me sinto diferente. O motivo, esse, não é nenhum mistério. É suspeita. E não se trata de um acto isolado mas sim de uma conjuntura. E apesar disso não encontro simplicidade no porquê. Apenas deixo de ser eu. Por momentos passo a ser esta outra pessoa de quem não gosto. Frio e estranho

"É impressão minha ou parece que acabaste de congelar?" - perguntou ele.

Talvez. Ela seguia agora na direcção oposta... alheia ao comentário. Agora que penso nisso apetece-me rir. Logo ele que não se conforma em ver-me de t-shirt na rua à noite. A verdade é que ele já me conhece o suficiente ao ponto de saber que congelei. Fico calado. Evito olhar para os olhos de seja quem for. E ali à frente de todos, o meu "eu" outrora extrovertido, esconde-se, subjugado pela inerente irracionalidade do que sinto. Sinto-me frio e estranho.

"Mas o que é que te passou pela cabeça para fazeres isso?" - perguntou ela.

Não sei. É que não sei mesmo. E ao mesmo tempo interrogo-me sobre o que acabei de fazer. Ela ria-se. Não vejo maldade nem animosidade no meu acto. Foi somente um desabafo. Repercussões? Não sei... é capaz de haver. Olho para o telemóvel na vã esperança de encontrar uma resposta. Uma palavra que seja. Continuo frio e estranho.

"Vais ter de assumir isso!" - disse ela.

Logo se vê. Não sou de fugir às minhas responsabilidades. Já adiá-las... essa é outra questão. Se assumo o que fiz e o que disse.... eventualmente. Mas neste momento julgo não estar com capacidade para confrontar o que quer que seja. O frio dissipa-se... a estranheza perdura.

"Tem calma. Amanhã falamos melhor e logo me contas." - disse ela.

Não! Tou cansado. A sério que estou. Já não me identifico com a causa. São as pequenas coisas que se vão acumulando que mais moem. Não vou compactuar com atitudes deste género. Não quero. Que falta de senso e consenso. E até que estava a começar bem. Por esta altura já nem me lembrava porque havia estado com frio ou sentido estranho.

"Gostei da tua atitude. Vá lá... alguém finalmente falou." - disse eu.

Ele olhou para mim e esboçou um sorriso. Ele sabia do que eu estava a falar. Quando entrei no balneário houve quem me abraçasse. Fiquei contente. E momentos depois sentia-me de novo parte de algo. Mas também foi sol de pouca dura. Já não sinto frio.

"Sinto-me estranho." - escrevi eu.

E a resposta que eu esperava... essa nunca chegou.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

La crème de la crème

"Às vezes, pareces bruto e distante para esconder os teus sentimentos." - disse ela.

Repliquei ser verdade. Mas pensando melhor, talvez não devesse ter sido tão peremptório na resposta que dei. Não por receio ou vergonha, até porque a subscrevo com relativa facilidade, mas por não ser aquela uma verdade linear.

Uma verdade linear... retiro. Removo. Desaprovo. Por si só já se trata de um contra-senso. A verdade não tem como não ser una e como tal linear. A linearidade aqui não se prendia à verdade mas sim à afirmação que a confrontava. Mas também é preciso analisar o contexto em que tal afirmação surgia. Não se tratava de uma acusação.

"Tá aqui uma colega a falar de signos. Qual é o teu signo?" - havia ela perguntado momentos antes.

Quem me conhece sabe que pouco ou nada ligo a isso, chegando mesmo a fazer troça de quem acredita. Saturado das mil e uma opiniões de quem acredita nos alinhamentos dos astros, nas linhas da vida nas palmas da mão, nos cristais de energias e nas mezinhas e poções de amor e fortuna, respondi-lhe:

"Caranguejo. Serpente. E a que conclusão chegaste?" - perguntei por fim em tom de escárnio.

O primeiro comentário foi sobre o quanto eu me entregava à família. Não é mentira nenhuma. É dos bens mais preciosos que tenho. Principalmente a minha família por criar. Sem a conhecer e é já por quem luto. Mas daí a dizer que tal virtude seja pertença exclusiva daqueles que partilham do mesmo signo que eu... parece-me no mínimo redutor. Muito bem... idiota! Sim aplica-se a mim. Assenta-me que nem uma luva.

Há muitos anos atrás, um amigo meu disse-me algo de que nunca mais me esqueci:

"Como amigo não tens nada a apontar, antes pelo contrário. Não há muitos amigos como tu... mas como namorado és uma besta!" - disse ele.

Muita coisa mudou desde então. Acho que acabou por funcionar como um alerta. Passei a ter mais tento na forma como me expressava. Tentei ser menos arrogante, menos prepotente, mais calmo e sensível às susceptibilidades de quem me rodeava. Há quem diga que falhei. Eu, bom... eu acho que estou bem melhor.

"Hummm... elitista... estou a ver." - disse ela. - "Não, não... mas compreendo."

Desta é que não estava à espera. Não sei o que me confudiu mais. Se ser chamado de elitista ou se ela dizer de seguida que compreendia. Mas sim. Sou de certa forma. Ou melhor. Não me vejo tanto como elitista mas como "seleccionista" se é que tal termo pode ser empregue. Selecciono friamente com quem me quero dar. Selecciono círculos e evito misturá-los. Admito ser em parte calculista na forma subsconsciente com que o faço. Até porque a história me ensinou a não o fazer. Mas como se pode rotular alguém de calculista se o cálculo em si é inconsciente? E como pode ser inconsciente se neste momento, pleno dos meus sentidos, indago?

Gosto de "nichos" sociais. Talvez porque acabem por funcionar como redes de salvação. Para as quais saltamos enquanto outros se desmoronam. Ou porque posso ser várias pessoas. Mas isso também pode ser mau não é? Ser várias pessoas... 

Será esta minha defesa a força que me impede de me encontrar? Quantas pessoas sou? Não sei. Sinto que sou várias e contudo cada vez menos. Será que é isso que acontece quando crescemos? Quando amadurecemos? Sermos menos?

E no fim... sermos um?

sábado, 11 de outubro de 2008

Foi só outra etapa

Foram várias as pessoas que nestas últimas semanas me perguntaram porque havia parado de escrever. E nessas pessoas encontrei carinho. Encontrei expectativa e interesse em me querer conhecer melhor. Alguns de vocês sabem o porquê de eu ter parado. Se isso justifica? Não sei. Se é compreensível? Também não sei. Se aqueles mais próximos compreendem? Provavelmente não... mas sinceramente, também não estou preocupado com isso.

"Mas porque não escreves sobre isso? É assim tão complicado? Ou tens receio ou vergonha de falar sobre isso?" - perguntou ela.

"Nada disso!" - respondi eu - "Não é nada que não se saiba. É algo que tanto eu como o grupo sente. É algo que ela sente também. E é estranho. Desde então que tento escrever e não sei como. Pura e simplesmente... bloqueio!"

Desde que ela se foi embora que todos sentimos falta dela. Às vezes, enquanto estamos todos na conversa, imagino-a ali ao nosso lado. E como ela se faria notar. Como se esperasse a qualquer momento ouvir a voz dela de novo. Como se tudo isto fosse apenas um sonho.

Em tom de brincadeira expliquei-lhe que ela havia sido parte importante do grupo neste último ano. Era uma de nós. Era como um sol, um centro, uma força gravitacional que nos atraía. Era "alto astral", "boa onda" e "gente fina".

"Pois. Talvez agora percebas o quanto ela nos fez falta aqui durante um ano. Ela é uma pessoa linda demais." - disse uma das amigas dela há umas semanas atrás.

Eu sei que eles também têm igualmente saudades dela. Têm contudo formas diferentes de se exprimirem. Acho que são mais contidos... mas isso não minimiza em nada o que sentem.

"Março. Temos de ir até Março. Março o mais tardar!" - diz ele de vez em quando.

Como nos fazes falta amiga. O teu sorriso, a tua boa disposição, a tua postura na vida, as tuas histórias e piadas... os copos e os festivais.

Março. Vamos em Março...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O filho pródigo


Quantos de nós que vivemos em Lisboa, visitam o Mosteiro dos Jerónimos, deslocam-se até à Torre de Belém ou tiram fotografias ao Cauteleiro? Quantos de nós vão até ao Adamastor e olham para aquele pôr-de-sol como se fosse o último? Ou tiram uma fotografia com o Eça na Brasileira? Pois... é exactamente quando temos dados por garantidos que não apreciamos devidamente aquilo que estamos a ver, sentir e viver. Porque sabemos ou achamos que amanhã vão estar lá de novo. E mesmo que amanhã não nos apeteça, vão estar sempre lá à nossa espera...

Não estava nervoso nem tampouco ansioso. Não constituía novidade. Tudo me era familiar. Sabia para onde ir, como ir e o que fazer. Estava em casa de novo. Comprei o meu "one day travelcard - zones 1-6" e segui para o coração da cidade. Ia ser directo. Ia ser o mesmo caminho que havia percorrido tantas vezes.

"The next station is Picadilly Circus. Mind the gap." - disse uma voz que não se cansa com o passar dos anos, como que parada no tempo.

Foi quando cheguei à superfície que tudo mudou. Senti-me feliz. Senti-me em casa. Num sítio muito meu, cheio de boas recordações, de cheiros, cores e sons. A minha cabeça estava agora cheia de pessoas, locais, acontecimentos... parei e rodei sobre mim mesmo, olhando para todos os edifícios e pessoas, que indiferentes ao que sentia, seguiam os seus próprios caminhos. Peguei na máquina fotográfica e comecei a tirar fotografias. Comecei a pensar onde gostaria de ir a seguir e que fotos queria levar para não mais me esquecer. Para recordar.

Foram cerca de 4 horas a pé... sem parar. E nunca foi demais. Nunca fiquei cansado. Era o tempo que tinha disponível para voltar a encher a alma. E foi tempo suficiente para me lembrar o vício. Foi tempo suficiente para querer voltar e mais uma vez deixar tudo para trás.

Será que devo? Serão estes os melhores motivos? Deverei ceder ao que o coração me diz para fazer quando a razão me diz para ficar quieto? Onde me levou antes o coração? Não devo hoje o que tenho à razão? E será o que tenho hoje aquilo que quero? E quanto mais penso nestas e noutras questões, enquanto as peso na balança cega das decisões, onde frequentemente se vangloria a indecisão... mais compreendo que este é um capítulo que ainda não dei por terminado. É um assunto por resolver e que precisa de ser fechado.

Não sei quando, mas vou voltar. E quando voltar vai ser diferente. Desta vez... venho preparado!

sábado, 13 de setembro de 2008

Nuestros hermanos


A minha percepção do povo brasileiro e do Brasil tem vindo a sofrer significativas alterações. Curioso. À medida que escrevo isto apercebo-me que o mesmo se deu relativamente aos espanhóis há alguns anos atrás. E em ambos os casos pelo mesmo motivo. Porque comecei a conviver com eles... e a conhecê-los.

Fui educado pela lobotomização nacionalista e pela perversão mediática. Sou um filho do pós-revolução. Temos uma identidade cultural fortemente assente em conflitos, frustrações e insegurança... pela nossa "pequenês". Receamos a investida económica espanhola, cedemos aos acordos luso-brasileiros e tudo isto porque já não somos os portugueses de há 500 anos atrás.

Comecei a dar-me com espanhóis em Inglaterra. O que facilitou. Éramos estrangeiros em terras de Sua Majestade e isso fez com que sentisse um elo de ligação diferente. E por isso permiti-me a conhecê-los e a confraternizar com eles. Acabei por perceber que não só desconheciam este nosso "ódiozinho" por eles como ainda por cima gostavam de nós. Que figura de parvo.

Os nossos irmãos atlânticos. As minhas primeiras impressões desde sempre estiveram contaminadas. Um simples "Oi?" em vez de um "Como?" chegavam a ser suficientes para me tirar do sério. Hoje em dia, "amo" o "irado", "animal" e "surreal". Talvez tenha tido sorte por ter conhecido brasileiros "super gente fina". Uma "galera" que gosta de "ir na balada". Apetece-me ou "tou afim"? Nós dizemos e eles "falam". Tem piada... segundo ela temos também uma divergência nos plurais. Será "morro de saudade de salada de aspárago" ou "morro de saudades de uma salada de espargos"? Quem sabe...

Da mesma forma que nem todas as portuguesas têm bigode, nem todos os portugueses se chamam Manel e nem todos são padeiros... também nem todos os brasileiros são calões que se limitam a apanhar côcos suficientes para os "chops" do dia. Nem todos são criminosos de favela. Estes são estigmas e preconceitos que se foram gerando ao longo do tempo e que facilmente poderão ser quebrados...

...basta nos querermos conhecer.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Óscar à trois


Juro que fiquei emocionado. Consegui esconder o quão excitado estava com a ideia ao deixar transbordar somente um ligeiro sorriso. Levantei-me e dei-lhe um fervoroso aperto de mão e voltei a sentar-me. A minha cabeça borbulhava com ideias, com ramificações daquela ideia base, daquele conceito. 

"Genial!" - escrevi eu.

Estava no "papo". Era aquilo que procurávamos. Era aquela a ideia que nos iria levar a um desfecho vitorioso. Tive logo a certeza... e ele também.

"E tu minha menina vais-te juntar a nós..." - disse-lhe em tom de brincadeira, deixando claro que um "não" estaria fora de questão.

A verdade é que ela se tornou uma pessoa muito especial para mim. Uma pessoa que profissionalmente muito admiro e respeito. E tê-la na equipa dava-me automaticamente outro alento.

Ele já nem conseguia pensar noutra coisa... e em boa verdade, nem eu. Combinámos ficar os 3 no escritório até mais tarde nessa noite para discutirmos ideias e conceitos. E é nestas alturas que percebemos o poder da motivação das pessoas. E do que são capazes quando tomam os projectos como seus. Fosse por outro motivo e talvez não tivessemos ficado de bom grado várias horas em "brainstorming".

Aqui tínhamos 3 pessoas de áreas diferentes num universo empresarial de 5 áreas... mas com um denominador comum: derivados de "IT". Achámos que deveríamos explorar as outras 2: marketing e design.

Olhando para trás, encontro realização na proporção que a ideia tomou, na volta que soubemos dar ao conceito inicial, a todos os novos segmentos e ramificações que surgiram e ao potencial que se encontrava por trás de cada um deles. O BluEgo poderia ser uma realidade. E todos havíamos feito parte disso.

Empenho. Entrega. Dedicação. Não faltou nenhum... e isso apenas se pode traduzir em vitória!

Mas a vida não são apenas vitórias. Existem também derrotas. E também elas assumem um papel importante na vida. É importante saber perder. É importante perder para compreendermos o valor de ganhar. Torna-nos humildes. Desafia-nos a melhorar e a crescer. Torna-nos mais competitivos.

Lembro-me de forma um tanto ou quanto vaga de alguém uma vez me ter dito que ao contratar um executivo, preferia aquele que já tivesse falhado uma ou mais vezes ao invés de um que apenas tivesse conhecido o sucesso. A explicação era simples: o primeiro já sabia o que evitar e de como evitá-lo... e já o segundo podia apenas ter tido sorte até então e ainda não estar devidamente preparado. Neste seguimento recordo-me também de ter ouvido que falhar faz parte do processo de atingir objectivos. A descoberta científica de uma nova cura para o cancro representa uma ínfima fracção das tentativas feitas nesse sentido. Foi preciso falhar muito para conseguir chegar lá. Foi preciso não ter medo de falhar e continuar a tentar. Foi preciso aceitar um possível falhanço como um novo avanço.

"Oi... sabes quem ganhou?! A equipa de motion. Achas isto normal?!" - disse ela assim que atendi o telemóvel.

"Well, a ideia era boa... tem imenso potencial. Se era o tipo de coisa que estaríamos à procura... não sei. Mas não me choca..." - disse eu, sabendo perfeitamente que ela estaria a brincar.

"Estúpido, estou a gozar... GANHÁMOS!!!" - gritava ela, compensando o ruído ensurdecedor que o metro fazia ao chegar à estação.

A noite começara bem e abeirava-se agora a segunda vitória do dia. A multidão juntava-se. Ouvia-se "A Portuguesa" e os vendedores ambulantes promovendo um patriotismo interesseiro. Os cachecóis dançavam ao sabor do vento, ao som dos rios de cerveja e do crepitar das febras. Na práctica esta era a primeira vez que ia ver um jogo de futebol ao estádio. E Portugal ia dar uma "coça" à Dinamarca. Acho que não preciso de falar mais do jogo. Se o resultado foi justo? Não...

"Epá... o futebol tem destas coisas e até ao apito final é tudo jogo." - disse ele.

Se calhar tivemos sorte. Mas uma coisa é certa. Não temos medo de falhar.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A vida em OOP

Estava cansado. Mal conseguia falar direito e muito menos organizar os meus pensamentos. Tinha sido um fim de semana muito intenso. Ela vinha a dormir atrás e ele vinha ao meu lado a guiar o carro dela. Olhei para eles. Ele concentrado, certamente ainda a pensar sobre os nossos últimos dias... ela, tinha acabado de conhecer. Os seus olhos meigos estavam agora fechados e a tranquilidade que vivia na sua face escondia o sorriso de minutos atrás.

Os meus sentidos rendiam-se agora à basicidade do que nos rodeava. Limitavam-se a compreender e a interagir com as coisas simples que me eram apresentadas. Na disformidade das texturas. Na panóplia de cores. Nos cheiros associados. Nas propriedades dos objectos que constituíam o meu novo mundo.

"Não vais acreditar... mas e se te dissesse que em fracções de segundo a minha cabeça me levou a criar uma analogia entre a vida e programação?" - perguntei.

"Diria que ainda estás sobre o efeito das nossas 3 últimas noites!" - ok... ele não disse isto... mas admito que o tenha pensado.

Tudo são objectos. E encontro-os em todos os lugares. Que encerram em si as propriedades que os definem. Conceitos que se traduzem por classes e que através delas se materializam. Fábricas de objectos que respeitam os conceitos em que se inserem. Delegados que transmitem ordens e permissas. Objectos que se cruzam. Que transitam. Padrões. Que se encontram nas interfaces da sociedade. Que se respeitam e dão a conhecer. Contratos. Referências e valores. Conceitos abstractos. Objectos derivados. Estáticos e em movimento. Boas práticas. Acordos selados e protegidos, privados ou públicos. Objectos que comunicam e trocam impressões entre si. Criação e destruição... quem instanciou o "big-bang"? Quem foi o programador que criou este mundo de vida e de quem são os mundos que crio?

Foi talvez um fim de semana demasiado intenso. Fechei os olhos, sorri... e adormeci.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Portugaru San

A primeira experiência de que me lembro com o sexo oposto foi no mínimo estranha. Já nem me lembro do nome dela. Lembro-me da rejeição, da humilhação e de ser preterido a favor dele... mas do nome dela, nem por isso. Mas ainda me lembro do que me chamou.

"Chinesinho!!!" - gritou ela. - "Eu não quero brincar com o chinesinho..."

Eu deveria ter os meus 5 ou 6 anos de idade. Nessa altura, as nossas famílias constumavam passar os verões juntas, alternando entre a casa de uns e outros, entre Vilamoura e Vale Navio, entre a nossa casa e a dele. Gostava mais de Vilamoura... mas a piscina dele era bem maior! E foi lá que a conheci... e com tenra idade, a percepção das linhas faciais.

"Realmente o rapaz tem traços chineses. Diz-me meu menino... tens algum familiar chinês?!" - perguntaram-me a dada altura.

A verdade é que não. Não tanto quanto saiba. E não pensem com isto que tal questão me possa afligir. Mas de facto tanto a mãe do meu pai como a minha própria mãe, ambas aparentavam os mesmos traços e certamente foi delas que adquiri os meus. Mas como disse... não, não tinha.

"Chinesinho limpópó!!!" - troçava.

Estávamos agora em 1993. Sentia-me nervoso. E não era caso para menos. Não só era minha tia com também era a primeira vez que ia ao teatro. E tinha medo de não compreender. Tinha medo de com isso a desiludir. Ela que na altura seria das poucas pessoas do lado da família da minha mãe com quem me identificava. Porque era diferente. Porque contra as adversidades da vida havia vingado. Porque a admirava. Porque era inteligente, linda e simpática... e porque era minha tia.

Lembro-me de uma sala escura. De um foco de luz. Uma capela. E no meio da sala lá estava ela. Impávida e serena, a aguardar... o Senhor Portugal em Tokushima.

Hoje em dia não nos falamos. Não por não respondermos aos convites que já não existem. Não por nos ignorarmos nos encontros que não acontecem. Mas porque não nos procuramos.

Às vezes lembro-me dela. Lembro-me da história dos cogumelos frescos e do arroz frito. Lembro-me da minha pequena prima. De um terraço sobre o rio. Lembro-me daquele bar cheio de outros artistas. De quando nos cruzávamos nas imediações da casa da minha avó... e pouco mais. Mas quando me lembro dela, lembro-me de tudo isto...  e lembro-me com carinho. Com pena. Com mágoa.

No outro dia veio à minha memória. Não sei porquê, mas liguei-lhe. O número estava certo. A indiferença na voz que se fez ouvir não. Foi estranho. Não falava com ela há anos. Pensei que fosse ficar contente. Foi uma daquelas trocas de palavras vazias e desprovidas de qualquer pertinência. Palavras de ocasião que servem para nada mais que quebrar o silêncio que as precede. Pergunto-me quem terá abandonado quem. Pergunto-me se deverei deixar certas relações ficarem onde elas pertencem... na nossa memória. Onde apesar de permanecerem felizes espelham nada mais que uma mentira. Outra mentira...

Fiquei triste mas revalidei o que no fundo já sabia. Que trilhamos caminhos diferentes. Que atribuir culpabilidades sobre quem estragou uma relação não só não a trás de volta como também não nos faz sentir melhor. Aconteceu. A relação morreu. E agora resta-me viver com isso... ou esquecer.

Opto por esquecer...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Viagem ao mundo dos sonhos


Ao contrário de Martin Luther King, eu tenho vários sonhos. De alguns tive de abdicar, de outros começo a perder esperança e encontro-me agora agarrado com todas as forças aos poucos que me restam. E foi quando li "A última aula" de Randy Pausch que reflecti sobre algo que nunca havia feito. Sobre ajudar os outros a atingirem os seus sonhos.

Recordo-me que a dada altura, Randy fala de como com o avançar da idade, nos tornamos menos egoístas e começamos a retirar mais prazer daquilo que damos do que obtemos. E encontro-lhe alguma razão. Ou pelo menos acho que começo a compreendê-lo. Fui presenteado com a oportunidade única de ajudar alguém a concretizar o seu sonho. E aquilo que sinto desde então é inexplicável. Talvez por ser um dos meus sonhos. Talvez por ele ser um dos onze. Não sei... apenas sei que através dele consigo viver o meu sonho e que ajudá-lo me faz vivê-lo ainda mais.

No outro dia comentávamos as voltas que a vida dá e as partidas que nos prega. E como por trás de um acontecimento desfavorável, mantendo uma postura positiva, se esconde pontualmente uma oportunidade. E essa oportunidade surgiu, infelizmente à custa de algo que lhe custa ainda ultrapassar, e ele soube agarrá-la. Foi uma limpeza de alma. Um redescobrir-se. Um desencadear de eventos que levou à geração de um sonho. Sonho que agora abraça e que já se encontra a viver.

É aqui que encontro esperança. Sabendo que ainda podemos gerar sonhos. Sabendo que apesar de ter perdido velhas oportunidades, novas poderão surgir, e isso dá-me um novo alento.

A viagem começou. É uma viagem de estado de espírito, uma viagem de auto-conhecimento e auto-conceito. Uma viagem que desafia os nossos limites e testa todas as componentes da nossa vida sócio-cultural. É uma viagem que torna qualquer indivíduo não um cidadão mas um Homem do mundo. Uma viagem que trará tal riqueza de vida e experiência enquanto ser humano que não existe dinheiro que possa pagar. Uma viagem intransmissível. Uma viagem de sonho.

Eu sei que ele quer fazer esta viagem sozinho. E tem de fazê-la sozinho. É parte integrante do seu sonho. Mas ele sabe que sozinho é a última coisa que vai estar...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Filhos de uma Croata


Nem queria acreditar no que estava a ler, mas a mensagem era clara e sucinta... não existia espaço para erro ou confusão. Tinha acontecido. O desmoronar de ideias deu lugar a um estado de automatismo que me levou ao gabinete dele. À medida que me deslocava só conseguia pensar no como, quando e porquê de ter acontecido. Mas tinha que lhe dar qualquer tipo de satisfação antes de sair. Depois de o fazer, voltei à minha sala onde já comentavam se aquilo estaria mesmo a acontecer... se era de facto verdade. Infelizmente era.

Nunca o caminho para casa me tinha parecido tão moroso... e contudo mal me lembro dele. O meu pensamento ia de encontro à minha perda. Aos anos de trabalho e recordações. Ao suor e custo que havia empregue em cada uma das peças. Porque ao contrário do que se poderia esperar, não se tratava apenas de uma perda material... tratava-se de ferir a minha liberdade, de corromper a minha independência e violar a minha privacidade. Imaginei um cenário assolador. Esperei o pior.

Assim que cheguei, estranhei a tranquilidade que se vivia na rua e na entrada do prédio, alheias ao sucedido, como se de qualquer outro dia tratasse. A verdade é que por momentos me fez sentir que tudo estava bem. Tratara-se de um erro, de um mal-entendido ou até de uma partida de mau gosto. Como estava longe da verdade. O interior do prédio revelou-se diferente... e fez-me voltar à realidade que temia.

À medida que subia as escadas, deixei de pensar... estava em branco. Recordo-me vagamente de passar por elas. Diziam algo que na altura me foi impossível decifrar. A minha cabeça estava ao rubro e prestes a sucumbir. E foi um longo silêncio que culminou com o abrir da porta.

"César, a tua casa foi assaltada e a minha também." - dizia a  mensagem de texto que havia recebido cerca de 30 minutos antes.

À medida que varria o quarto com os olhos, fazia o contraste entre o que encontrava e o que esperava que tivesse sido tomado, como se de uma "checklist" tratasse. Devo ter estado cerca de 2 minutos, calado, focado no que me haviam roubado...

"Nada... não acredito... não me roubaram nada... nada mesmo!!!"

E aqui foi a vez da tempestade dar lugar à calmaria. Uma calmaria exterior. Não deixava de sentir uma enorme impotência e frustração. Mas estes são sentimentos passivos.

Há coisas que nunca havemos de conseguir explicar. E existem diversos pormenores neste "assalto" que me causam alguma espécie. Segundo a polícia, vários "gangs" de crime organizado croata e romeno, têm operado nesta área. O mesmo "modus operandi". E não estranham o facto de não terem levado nada...

"Sabe... estes fulanos apenas andam à procura de dinheiro e ouro. Não lhes interessa serem apanhados com peças incriminatórias nem tão pouco têm receptores para determinados produtos. Acredite que não acho estranho... vejo com cada coisa!"

Não sei até que ponto estas palavras me tranquilizaram. Acho que nada mesmo. A verdade é que continuo com medo. Sinto-me inseguro. Vulnerável. Ouço ruídos pouco usuais lá fora. Mas também nunca estive em casa sem música ou televisão... por isso também não sei quais são os ruídos habituais mesmo.

"Eles hoje pelo menos já não devem voltar..." - diz um dos vizinhos.
"Olhe que cá para mim isto foi só o início... a seguir somos nós." - diz uma das vizinhas.

O burburinho virou opinião. A troca de opiniões deu aso a conversa. E a vizinhança juntava-se à medida que chegava. E tão depressa tudo começou como terminou. As portas fechavam-se e muitas pessoas jantaram hoje mais tarde que o habitual. E a vida deles normalizou...

A minha porta continua aberta... não consigo fechá-la. Vou tentar ficar acordado.

domingo, 31 de agosto de 2008

Pipocas inteligentes

"Gosto de filmes que me façam pensar."

Pode até parecer estranho dado o contexto. Afinal de contas, estávamos no intervalo daquele que acabou por ser a nossa 3ª escolha, por questões que se prenderam com "timmings" e problemas de ordem técnica. Diga-se também de passagem que qualquer um destes 3 filmes requeria a carga intelectual de uma criança de 6 anos. Mas eu percebi o que ela quis dizer...

"Gosto de filmes com substância, que me façam reter algo no fim... gosto de filmes com uma moral por trás." - disse ela.

Não valia a pena. Nunca lhe iria conseguir vender outro filme do Vin Diesel. Eu sabia o que ela estava a querer dizer e não podia deixar de em parte concordar. Mas também sabia que tínhamos graus de exigência diferentes. Havíamos gerado diferentes expectativas sobre o que um filme deveria ser e isso condicionava as nossas escolhas.

"Ele não gosta de filmes... ele devora filmes. É um consumidor de filmes." - disse ele em tom de gozo.

Sorri. Ele não deixava de ter razão. A verdade é que adoro filmes e sou capaz de passar horas a vê-los, independentemente do género, enredo, elenco ou até mesmo do número de vezes que já os vi. Vejo filmes como forma de entretenimento e é isso que eles são para mim... uma fonte de passar o tempo, distracção e divertimento. E como tal não sou esquisito. Para ser sincero, chego a ter alturas em que fujo a sete pés de filmes inteligentes.

Há muitos anos atrás, perguntei ao meu irmão que tipo de jogos de computador é que ele preferia, apesar de saber perfeitamente que ele não era sequer grande apreciador de nada que tivesse a ver com um computador. Para quem não conhecer o meu irmão, fica a nota de que é 8 anos mais velho do que eu, licenciado em Direito, e que acredita piamente que os computadores apenas vieram piorar a qualidade de vida do Homem. Mas adiante. Depois de ele me dizer o nome de um jogo de futebol e outro de fórmula 1, repliquei com jogos de estratégia e "role playing games", através dos quais seria possível gerir intrincados mundos virtuais, com uma infinita panóplia de caminhos a percorrer, personagens fantásticas por conhecer, regras a respeitar... e ele respondeu-me algo de que nunca mais me esqueci:

"Cesarinho... para te ser sincero, os meus estudos e trabalho já me requerem que passe a totalidade dos meus dias a pensar e a esforçar-me intelectualmente. Quando estou em casa, num momento de lazer, opto por não fazê-lo. Também se pode retirar algum proveito da estupidificação."

Na altura não percebi bem... pensei que lá estava o paleio de advogado a esquivar-se à questão. Acho que depois destes anos todos já percebo o que o meu irmão quis dizer.

Tenho pouco mais de 300 filmes... originais claro! Ninguém que pirateie filmes afirmaria ter tão poucos. Seria de imediato alvo de chacota. Todas as pessoas que conheço que "sacam" filmes da "net" falam sempre na casa dos milhares ou em "gigas":

"Epá... tou a sacar agora a terceira temporada daquela série de que nem me lembro do nome nem do que se trata e que provavelmente acabarei por nunca ver, visto que mesmo que parasse agora, nunca teria tempo numa vida útil para ver tudo o que já saquei... e são apenas 5 gigas!!!"

Faz-me rir... mas não tenho nada contra. Aliás, longe de mim estar aqui com falsos moralismos depois de tudo o que já "saquei". Nada disso. Apenas acho piada aos coleccionadores de "gigas".

"Mas tu compras filmes? Para quê? Aposto que 80% dos filmes que tens só os vês uma vez... qual é o interesse de ver um filme de novo quando já se conhece o final?"

É complicado discutir com alguém cujo discurso faz todo o sentido. Responder-lhe com algum encadeamento coerente e racional é penoso. A resposta... bom essa seria tudo menos racional. Compro filmes porque faço colecção. Porque faz tanto sentido como ter centenas de isqueiros, selos, cromos ou vinhetas de teatro. E porque prefiro ver filmes em casa do que no cinema. Sem comparação possível. Se há coisa que me irrita durante um filme é o irritante som das caixas de pipocas, dos comentários labregos e das risadas em momentos chave de filmes dramáticos. E hoje não foi excepção. Mas valeu a companhia... e todo o dia que os 3 deixámos para trás.

sábado, 30 de agosto de 2008

A Paço e Paço

Há algum tempo atrás, ele falou-me de um livro e de um autor que me chamou a atenção, apesar da piscina teimar em distrair-me. A água estava gelada, tinha cancro pancreático, o sol estava alto, tratava-se da sua última aula, o vento estava incomodativo, rodava à volta dos seus sonhos de criança e eu tinha-me esquecido de trazer a toalha. É claro que por esta altura a minha cabeça fixou-se em usar a toalha do outro antes que ele voltasse!

"A sorte... é quando a oportunidade... se encontra com a preparação." - disse ele de forma pausada e em tom de citação.

E foi quando me deitei na toalha do outro que consegui falar com ela, que em bom costume, me deliciou com inúmeras dicas gastronómicas. Ainda não consegui pôr nenhuma em prática... mas mal posso esperar. Acho é que vou ter de lhe ligar outra vez! Uma coisa é certa. Para quem ainda tinha a cabeça a "descansar" dos intensos fins-de-semanas de festivais, foi demasiada informação em tão curto espaço de tempo.

Fui para casa e repetia para mim mesmo: "Carnegie Mellon... Murphy Richards... Randy Pausch... Hoovis ou Fermin..." - não necessariamente nesta ordem, mas de forma ininterrupta até ter conseguido tomar nota.

A verdade é que, apesar de provavelmente ter parecido distraído, tanto o livro como a compota de abóbora haviam realmente captado a minha atenção. De tal forma que três dias depois tinha comprado o livro na FNAC e 2 boiões de vidro no IKEA para a compota que tenciono fazer com os meus sobrinhos. Um deles vai ser para ela. Um dos boiões... não sobrinhos!

Quanto ao livro... li, ri, chorei, reflecti e identifiquei-me com o autor... e recomendo vivamente. Para quem está à espera que eu coloque aqui o nome do autor assim como do livro, gostaria de vos deixar com um trecho interessante e que a meu ver se aplica:

"Os obstáculos não estão lá para nos impedir de conseguir atingir o que queremos. Estão lá apenas para somente deixar passar aqueles que realmente querem e fazem por isso. Ou seja... estão lá para impedir os outros!"

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O filho do meu pai


Já dizia o povo que "filho de peixe sabe nadar". E o que parece lógico, óbvio e acima de tudo simples na sua composição, não deixa contudo de me intrigar. Talvez por outra das minhas características que tanto me afecta: a imutável incapacidade de aceitar que algumas coisas são realmente simples e lineares e que não encerram misteriosos enredos à espera de serem descortinados. Que por vezes não existem complexas conspirações, significados escondidos ou sentimentos camuflados. Que um "sim" é sempre um "sim" e um "não" não é um "talvez".

"Filho de peixe sabe nadar"...

Interrogo-me sobre o porquê da expressão. O que a originou e baseado em quê. Sim, claro que conheço o sentido da expressão. Mas a lógica diz-me que um rebento de peixe será inequivocamente outro peixe e que, por conhecimento de causa ou por casual experiência, nadar lhe é inato. E não me refiro àquele peixe em concreto por ser descendente do outro, mas pelo fulcral pormenor de que ele próprio é um peixe! E é aqui que começam as ramificações do problema. Nadar é algo que pertence a esta espécie em particular e que é comum a todas as suas sub-espécies e aos elementos que a compõem. Não é nada que se passe através da educação, por qualquer processo de aprendizagem ou que se possa herdar por qualquer outro veículo que não os genes do mesmo, que esses sim ditam a sua competência. E consequente sobrevivência.

Nadar é portanto uma apetência inerente ao colectivo e não ao indivíduo que a herda. De onde se retira que a expressão apenas pode ser aplicada de forma generalizada e não direccionada.

"Filho de peixe sabe nadar"...

O meu pai é cozinheiro e eu cozinheiro fui... e adoro cozinhar. Se cozinho bem ou se os meus pseudo-cozinhados sequer se aproximam da "haute cuisine" do meu pai, essa já é outra história. O meu pai é louco por motas e aqui escuso de traçar paralelismo. Todavia é curioso ter começado a andar de mota antes dele. Também o facto de ele ter sido instrutor de mergulho e eu mergulhar é apenas mais um elo de ligação. Um elo aberto, visto que até hoje, nunca mergulhámos juntos!

"Filho de peixe sabe nadar"...

Certo. Bate certo. Faz sentido. Onde está então o drama? Onde está a questão, o dilema, a tal conspiração que se esconde à espreita por trás de cada uma destas afirmações? Apenas estou a provar que o provérbio tem motivo de ser. Mas também nunca disse o contrário. Apenas que me intriga.

Pois... o problema reside em nunca ter vivido com o meu pai. Em nunca ter tido uma relação pai-filho convencional. Em nunca ter convivido ao longo da minha infância e adolescência com o meu pai e por conseguinte, nunca ter absorvido os seus gostos, apetências, inclinações... ou sonhos. Por não ter tido a sua força nem as suas direcções. Pela distância que nos separa. Por nos termos acabado por tornar pessoas tão iguais. E tudo isto porque partilhamos os mesmos genes? Como seria se tudo tivesse sido diferente? Seríamos ainda iguais? Iria acarinhá-lo? Iria sentir-me mais próximo? Desconheço. Mas uma coisa sei... o filho do meu pai sabe nadar!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Os homens também choram


Quinta-feira. Como dita a instituição, existindo "quorum", juntam-se 2 ou mais "compinchas motards" para bebericar e divagar sobre as suas aventuras e desventuras motociclísticas. Hoje éramos 3... logo havia "quorum"!

Até aqui nada de invulgar. À hora habitual, lá estávamos no local do costume para dar início a uma noite que acabaria por se revelar diferente. E diferente foi o tema de conversa, que fugindo às habituais temáticas sobre o opulento busto de fulana ou às curvilíneas nádegas de sicrana, nos rematou para a religião, família... e amizade. E talvez o motivo pelo qual nos foi tão fácil dissertar sobre esta matéria foi porque os 3 sabíamos que estávamos perante amigos.

Amigos...

Palavra que no quotidiano empregamos com tal frequência que com o tempo acabou por cair na banalidade. Mas não era este o caso. Éramos e somos 3 amigos com "A" grande.

"O que é para ti um amigo?" - perguntou ele.

Esta questão caiu-me como uma bomba. Eu sei o que é um amigo. Mas falar sobre isso... como posso eu dizer o que é um amigo? Como posso eu por meras palavras descrever um sentimento tão nobre e substancioso como a amizade? Definir amizade é como definir amor... hercúlea tarefa! Mas poderá ser então a amizade uma derivação do amor?

"É uma pessoa que eu sei que estará lá por mim se precisar e por quem eu quero estar." - respondi. Pensando agora melhor no assunto acho que deveria ter acrescentado:

"É também uma pessoa por cuja companhia procuro e que quero que me procure, porque é nessa necessidade de reciprocidade, que se define o grau da relação."

A verdade é que poderia ter respondido exactamente da mesma forma se me tivessem perguntado sobre o amor. Sim, estaria incompleto... mas não incorrecto. Teria de falar de paixão também... mas essa agora seria outra história.
"E a família... consideras como amigos?" - perguntou o outro.

A verdade é que a família não se escolhe.

"Não... mas o meu irmão sim porque não é meu irmão." - disse, explicando de seguida o porquê da afirmação e clarificando a confusão.

"E quantos amigos tens?"- perguntou ele.

Ora aqui estava uma pergunta tão pertinente como traiçoeira. Se dissesse que tinha muitos estaria a desvalorizar os que considero amigos... se dissesse que tinha poucos, a verdade é que estaria a mentir. E assim que pensei nisso senti-me afortunado. Porque acreditava de facto ter mais do que a esmagadora maioria das pessoas afirma ter.

"15 talvez... cerca de 15... não sei... talvez menos... aqui pelo menos tenho a certeza que estão 2!" - retorqui. Não foi um número pensado mas foi sincero. Ambos responderam acreditar terem menos de 10...

A verdade é que eu estava perante 2 amigos de "A" grande. Eu sabia isso e eles também. Tentei em vão ocultar o quão emocionado fiquei e como tal não pude deixar de soltar uma lágrima ou duas. Mas os meus não foram os únicos olhos lacrimejantes...


PS: no final de escrever este "post" abri o notepad e escrevi o nome de todos os que considero meus amigos. São 11... afinal não estava assim tão longe!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Génese


Confesso que não tenho por hábito ler blogs. Sempre os considerei uma perda de tempo e como tal muito menos me ocorreu que um dia poderia vir a escrever um. Talvez porque até hoje nunca os tenha realmente compreendido nem percebido o seu valor, nem para o mesmo efeito a força que impele milhares de pessoas a escrever sobre os mais variados temas. Sim... prefiro pensar por isto e não por falta de temas!

E foi por mero acaso que acabei a ler um blog de uma nova amiga. Talvez por nostalgia ou por uma "gota" de saudade. E nessa gota adicional consegui rir, pensar, rever-me... e encontrar um pedaço dela que nunca havia conhecido. Adorei... e fez-me compreender!

Li o blog porque sei que se vai embora. E olhando para o passado e para todas as outras pessoas que a dada altura "se foram embora", tenho receio de não a ver mais. Aliás... não é propriamente receio. É tristeza sobre a eventual incerteza de também ela se vir a tornar em "mais uma gota"... de saudade! Olho para trás, para quase um ano de intermitente convivência, e arrependo-me de não me ter prestado a conhecê-la melhor.

Sem que procurasse, encontrei um motivo para querer escrever um blog, em que tal como ela... me consigo exprimir, desabafar, dar a conhecer, recordar, guardar e manter-me em contacto com todos aqueles que se "foram embora" ou de quem "fui embora".

Escrever um blog pode ser muita coisa e nada. E eu não quero que seja nada. Quero apenas que seja um pouco de "eu" e que aqui me possam encontrar...
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