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domingo, 21 de dezembro de 2008

Tudo o que é bom acaba



"Que dizes a um almocinho... estilo consoada na praia?" - perguntou ele.

A ideia pareceu-me desde logo óptima. Já tinha saudades de estar com eles. Lembrei-me da Arrifana,  do surf, do mar, de copos e churrascadas. Contem comigo!

"Então tio desaparecido. Esqueceste-te de nós?" - escreveu ele.

Não me esqueci de vocês meus queridos. Infelizmente estava a trabalhar e não me parecia que fosse conseguir sair a tempo de vos ir visitar. A noite parecia não ter fim. E com ela o projecto em mãos. Pensava agora no almoço do dia seguinte e a que horas teria de acordar. Bebia outro café e continuava. E com isto as horas passaram e o sol nasceu.

"Tou... sou eu. Então? Esqueceste-te do almoço?" - perguntou ela.

Quem? O quê? Ainda demorei uns bons minutos a perceber com quem tinha estado a falar. Parecia que tinha sido atropelado por um camião. Olhei para o relógio e compreendi o porquê. Eram 13:00 e tinham-se passado cerca de 4 horas desde que me tinha deitado. A custo levantei-me, movido pela saudade, e fiz-me à estrada rumo à praia.

Lá se encontrava a mítica "pão de forma". À volta dela, o grupo do costume e um par de caras desconhecidas. As pranchas enceradas e estendidas à volta da carrinha serviam de porta estandarte. As espetadas e as salsichas acabadas de sair da grelha circulavam e não se passaram dois minutos sem ter um copo de vinho na mão. Tudo o que era preciso estava ali. Um grupo de amigos, um grande ambiente de convívio e borbas para dar e vender.

"Já viste o que me deram no amigo secreto da empresa?" - dizia ele sorrindo e apontando para a cabeça.

Confesso que não sou grande apreciador de bonés mas aquele era um status! Se encontrar igual mas em preto... compro um. Uma GS é sempre uma GS.

Falámos de surf e do mar. De uma suástica que afinal não existia. De uma cruz maltesa que se assemelhava à do barão vermelho. Das viagens de mota a Marrocos, à Escócia e ao sul de França. Dos lobos da neve e daí para a neve em si. De quem vai e de quem foi. Da economia de direito. Das histórias da vida de cada um. E comíamos e bebíamos com gosto...

"Onde é que anda o fotógrafo?" - gritou ele.

As horas passaram e chegava a hora de dispersar. A "família" juntava-se agora para a foto de grupo. Coloquei a máquina em cima de um dos carros e corri. Despedimo-nos e infelizmente...

...tudo o que é bom acaba!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Os amigos do garfo


Eram 10 da manhã. A chuva e o vento teimaram em aparecer, mas nem mesmo estes nos demoveram de um último passeio. Tínhamos tudo o que precisávamos: a companhia de quem já partilhou muitos e bons quilómetros e um roteiro gastronómico.

"Vai desejar salmonete? Robalo? Dourada?" - perguntou ele.

Já não o via há algum tempo. Não desde que foi morar para a Polónia. Da última vez que estivemos juntos fomos os três almoçar a Rio Maior. Depois veio o acidente... e nunca mais o vi. Foi bom vê-lo e dar-lhe um abraço. Foi bom ver que estava bem e pronto para mais curvas.

"Se quiserem... ficam em minha casa em Londres e depois seguem!" - disse ele.

Falávamos da viagem à Escócia. Não era uma viagem nova. Já tínhamos considerado esta viagem no ínicio do ano, assim como a viagem a Marrocos. Infelizmente, nenhuma das duas se concretizou. O nosso presidente ausentou-se durante uns meses e verdade seja dita que isso fez toda a diferença. Faltou-nos um elo agregador. Uma peça basilar do nosso motoclube. Os encontros semanais na sede passaram a ser mensais e os ânimos motociclísticos deixaram-se esfriar com o tempo. 

"Vai desejar salmonete? Bica? Carapau?" - perguntou ele.

Salmonete. Confesso que apesar da viagem em si me entusiasmar, o facto de a quererem fazer em apenas uma semana me deixou meio apreensivo. Ao contrário deles, não acredito que se faça facilmente. Ou melhor... não é que não se faça, mas será garantidamente uma viagem a "devorar" quilómetros. Uma média de mil quilómetros diários? Durante sete dias? Quero visitar lugares e conhecer pessoas, comer e beber bem, assimilar culturas, tirar fotografias, quero repousar... quero memórias e experiências. Não procuro uma viagem frenética cujo expoente máximo seja a vanglória dos tempos e quilómetros percorridos. Não. Para isso não contem comigo. Não estou para aí inclinado.

"Vai desejar salmonete? Espada branco? Ovas? Salmão?" - perguntou ele.

Salmonete. Pensei no sul de França. Lembrei-me de um filme que havia visto há uns meses atrás, que apesar de se passar na California, traduzia quase na íntegra aquilo que procurava. Fiquei de pesquisar sobre isso. Sim. Soa-me bem. Salmonete. Uma viagem de uma semana pelo sul de França, turismo rural, visitar os "chateaux" e os campos vinícolas, cultivar-me em provas de vinho e na famosa gastronomia da região. Tirar muitas fotografias e fazer muitos quilómetros. Aproveitar as curvas dos pirinéus. Salmonete. O melhor de dois mundos.

"Vai desejar salmonete? Choco? Polvo?" - perguntou ele.

Salmonete. Por esta altura interroguei-me no porquê de salmonete ser uma constante. As migas de coentros e beterraba estavam uma delícia. A batata cozida e a salada traziam harmonia à mesa. E os jarros de vinho? Um era demais e 1000 não chegavam! Sei que te estás a rir...

"Vai desejar..." - e tive de o interromper com um redondo não!

Penso agora na velha máxima "Live to ride, ride to live" e traço um novo paralelismo com o que julgo todos sentirmos. Conduzimos como vivemos. Não se equipara a importância do destino ao caminho percorrido para lá chegarmos. São as estradas que nos movem e conduzem. É nos trilhos sinuosos que encontramos prazer. Uma adrenalina que nos faz sentir vivos. É quando paramos que medimos na extasiada expressão de cada um a qualidade de um novo troço. E frequentemente voltamos a visitar terras e lugares por causa das suas "curvas".

"E vais com este tempo?" - perguntou ela.

E porque não?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Hodgkin - parte I

Lembro-me, ainda que vagamente, de algumas das caras. Mas mais do que caras, lembro-me das circunstâncias que nos uniram, dos episódios que nos marcaram. Lembro-me dele mais do que de qualquer outro. Será por termos partilhado um quarto? Será por ter sido o meu primeiro amigo de cor? Ou seria por ter apenas uma perna? Pelos gritos de dor e sofrimento não foi... porque naquele sétimo piso, foram raras as noites em que não houvesse alguém a gritar por alguém.

Era noite e recordo-me nitidamente de estar cansado. Talvez já me devesse ter ido deitar. Mas era miúdo. E nessa altura tentava sempre ficar acordado até um pouco mais tarde. Fazia-me sentir adulto. Tinha nesta altura 12 anos. Entrei na sala e dirigi-me ao sofá de dois lugares. O meu irmão via televisão como habitualmente àquelas horas. Eu fazia o mínimo barulho possível para que ele não desse por mim. Talvez assim ele não me mandasse para a cama.

"Vai-te deitar. Amanhã é dia de colégio..." - dizia ele.

Normalmente fingia não ouvir. Ou então pedia para ficar apenas mais 5 minutos. Não nessa noite. Nessa noite eu não desci para ir ver televisão. Não desci por querer companhia. Não desci para ficar acordado até mais tarde. Não. E definitivamente estava longe de me querer tornar mais adulto. Entrei na sala. Sentei-me no sofá... e gradualmente deixei de respirar.

Lembro-me dele a gritar pelo meu nome, de colocar-me aos ombros, de descermos para o carro. Recordo-me de entrar nas urgências do hospital, de me colocarem numa maca, administrarem oxigénio, fechar os olhos... e acordar. Ainda estávamos na mesma noite. Não sei quanto tempo passou mas garantidamente era a mesma noite.

"O seu irmão teve um ataque de asma. Entretanto as análises ao sangue revelaram também estar com uma anemia por falta de ferro. Vamos mantê-lo esta noite por cá para fazermos mais algumas análises." - disse o médico.

Mal abria os olhos. Já há muito tempo que a minha asma não se manifestava. E nunca com esta violência. Havia deixado os vaporizadores e inaladores há já uns anos. Também já não frequentava o médico da asma. As aulas de natação tinham ficado para trás. Teoricamente a asma deveria ser problema do passado. Fiquei essa noite no hospital para observação...

"Houve uma complicação e infelizmente perdemos algumas das análises. Seja como for, existem alguns exames que gostaríamos de repetir, para clarificar uma possível situação." - disse o médico no dia seguinte.

Impressionante a forma como a nossa memória funciona. Consigo lembrar-me deste tipo de pormenores passados cerca de 17 anos. E quem me conhece sabe que eu mal me lembro do que jantei na noite anterior. Passados dois dias no hospital, chegou um diagnóstico para o qual o meu irmão não estava preparado. Não de novo. Não tão cedo.

"Como é que isso se pronuncia?" - perguntei.

Fui transferido para o IPO. Para o sétimo piso... departamento de pediatria. E foi aí que o conheci. Estava sempre a rir-se. E apesar de ter apenas uma perna, era dos que mais "corria" naquele corredor. Ficámos no mesmo quarto juntamente com mais 4 miúdos. Lembro-me mais das cicatrizes de cada um do que propriamente das feições. Nomes, esses, perderam-se com o tempo. Destes últimos não guardo recordações claras. Mas acho que é normal. Aquelas camas ao nosso lado tiveram uma rotatividade invejável. Talvez por não serem casos tão graves.
Esta era a minha nova casa. E nesta altura, eu ainda mal sabia o que esperar...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

La crème de la crème

"Às vezes, pareces bruto e distante para esconder os teus sentimentos." - disse ela.

Repliquei ser verdade. Mas pensando melhor, talvez não devesse ter sido tão peremptório na resposta que dei. Não por receio ou vergonha, até porque a subscrevo com relativa facilidade, mas por não ser aquela uma verdade linear.

Uma verdade linear... retiro. Removo. Desaprovo. Por si só já se trata de um contra-senso. A verdade não tem como não ser una e como tal linear. A linearidade aqui não se prendia à verdade mas sim à afirmação que a confrontava. Mas também é preciso analisar o contexto em que tal afirmação surgia. Não se tratava de uma acusação.

"Tá aqui uma colega a falar de signos. Qual é o teu signo?" - havia ela perguntado momentos antes.

Quem me conhece sabe que pouco ou nada ligo a isso, chegando mesmo a fazer troça de quem acredita. Saturado das mil e uma opiniões de quem acredita nos alinhamentos dos astros, nas linhas da vida nas palmas da mão, nos cristais de energias e nas mezinhas e poções de amor e fortuna, respondi-lhe:

"Caranguejo. Serpente. E a que conclusão chegaste?" - perguntei por fim em tom de escárnio.

O primeiro comentário foi sobre o quanto eu me entregava à família. Não é mentira nenhuma. É dos bens mais preciosos que tenho. Principalmente a minha família por criar. Sem a conhecer e é já por quem luto. Mas daí a dizer que tal virtude seja pertença exclusiva daqueles que partilham do mesmo signo que eu... parece-me no mínimo redutor. Muito bem... idiota! Sim aplica-se a mim. Assenta-me que nem uma luva.

Há muitos anos atrás, um amigo meu disse-me algo de que nunca mais me esqueci:

"Como amigo não tens nada a apontar, antes pelo contrário. Não há muitos amigos como tu... mas como namorado és uma besta!" - disse ele.

Muita coisa mudou desde então. Acho que acabou por funcionar como um alerta. Passei a ter mais tento na forma como me expressava. Tentei ser menos arrogante, menos prepotente, mais calmo e sensível às susceptibilidades de quem me rodeava. Há quem diga que falhei. Eu, bom... eu acho que estou bem melhor.

"Hummm... elitista... estou a ver." - disse ela. - "Não, não... mas compreendo."

Desta é que não estava à espera. Não sei o que me confudiu mais. Se ser chamado de elitista ou se ela dizer de seguida que compreendia. Mas sim. Sou de certa forma. Ou melhor. Não me vejo tanto como elitista mas como "seleccionista" se é que tal termo pode ser empregue. Selecciono friamente com quem me quero dar. Selecciono círculos e evito misturá-los. Admito ser em parte calculista na forma subsconsciente com que o faço. Até porque a história me ensinou a não o fazer. Mas como se pode rotular alguém de calculista se o cálculo em si é inconsciente? E como pode ser inconsciente se neste momento, pleno dos meus sentidos, indago?

Gosto de "nichos" sociais. Talvez porque acabem por funcionar como redes de salvação. Para as quais saltamos enquanto outros se desmoronam. Ou porque posso ser várias pessoas. Mas isso também pode ser mau não é? Ser várias pessoas... 

Será esta minha defesa a força que me impede de me encontrar? Quantas pessoas sou? Não sei. Sinto que sou várias e contudo cada vez menos. Será que é isso que acontece quando crescemos? Quando amadurecemos? Sermos menos?

E no fim... sermos um?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A guerra dos 3 dias

Ela tinha razão. A vida é demasiado curta.

"Tás parvo? Que coisa mais estúpida... achas que é por aí? Tu também passas logo do 80 para o 8..." - disse ele.

Fiquei parado. A expressão era familiar, mas ouvi-la ao contrário baralhou-me, e bloqueei. Não me lembro se na altura achei se ele tinha razão ou não. Eu também já deveria estar preparado para isto. Havia tomado uma decisão e cabia-me a mim levá-la a bom termo.

"Mas isso foi uma aposta? Foi com ele que apostaste isso?" - disse outro.

Não. Não foi uma aposta. Foi uma estúpida tentativa de me convencer de que seria capaz. Que eu seria mais forte. Que não sucumbiria ao desejo. Mas vê-los ali, cada um com a sua, fresca, loura, borbulhante... que sede.

"Ok, traz-me uma também..." - disse resignado.

Pensei em tudo o que me haviam dito para me sentir melhor. Sim. Eles têm razão. Não iria ganhar nada com isto e não era por deixar de beber cerveja durante um mês que iria provar nada. E teria sempre de ser gradual. Pois... eles têm razão. Que estupidez. E dei outro gole.

sábado, 11 de outubro de 2008

Foi só outra etapa

Foram várias as pessoas que nestas últimas semanas me perguntaram porque havia parado de escrever. E nessas pessoas encontrei carinho. Encontrei expectativa e interesse em me querer conhecer melhor. Alguns de vocês sabem o porquê de eu ter parado. Se isso justifica? Não sei. Se é compreensível? Também não sei. Se aqueles mais próximos compreendem? Provavelmente não... mas sinceramente, também não estou preocupado com isso.

"Mas porque não escreves sobre isso? É assim tão complicado? Ou tens receio ou vergonha de falar sobre isso?" - perguntou ela.

"Nada disso!" - respondi eu - "Não é nada que não se saiba. É algo que tanto eu como o grupo sente. É algo que ela sente também. E é estranho. Desde então que tento escrever e não sei como. Pura e simplesmente... bloqueio!"

Desde que ela se foi embora que todos sentimos falta dela. Às vezes, enquanto estamos todos na conversa, imagino-a ali ao nosso lado. E como ela se faria notar. Como se esperasse a qualquer momento ouvir a voz dela de novo. Como se tudo isto fosse apenas um sonho.

Em tom de brincadeira expliquei-lhe que ela havia sido parte importante do grupo neste último ano. Era uma de nós. Era como um sol, um centro, uma força gravitacional que nos atraía. Era "alto astral", "boa onda" e "gente fina".

"Pois. Talvez agora percebas o quanto ela nos fez falta aqui durante um ano. Ela é uma pessoa linda demais." - disse uma das amigas dela há umas semanas atrás.

Eu sei que eles também têm igualmente saudades dela. Têm contudo formas diferentes de se exprimirem. Acho que são mais contidos... mas isso não minimiza em nada o que sentem.

"Março. Temos de ir até Março. Março o mais tardar!" - diz ele de vez em quando.

Como nos fazes falta amiga. O teu sorriso, a tua boa disposição, a tua postura na vida, as tuas histórias e piadas... os copos e os festivais.

Março. Vamos em Março...

domingo, 31 de agosto de 2008

Pipocas inteligentes

"Gosto de filmes que me façam pensar."

Pode até parecer estranho dado o contexto. Afinal de contas, estávamos no intervalo daquele que acabou por ser a nossa 3ª escolha, por questões que se prenderam com "timmings" e problemas de ordem técnica. Diga-se também de passagem que qualquer um destes 3 filmes requeria a carga intelectual de uma criança de 6 anos. Mas eu percebi o que ela quis dizer...

"Gosto de filmes com substância, que me façam reter algo no fim... gosto de filmes com uma moral por trás." - disse ela.

Não valia a pena. Nunca lhe iria conseguir vender outro filme do Vin Diesel. Eu sabia o que ela estava a querer dizer e não podia deixar de em parte concordar. Mas também sabia que tínhamos graus de exigência diferentes. Havíamos gerado diferentes expectativas sobre o que um filme deveria ser e isso condicionava as nossas escolhas.

"Ele não gosta de filmes... ele devora filmes. É um consumidor de filmes." - disse ele em tom de gozo.

Sorri. Ele não deixava de ter razão. A verdade é que adoro filmes e sou capaz de passar horas a vê-los, independentemente do género, enredo, elenco ou até mesmo do número de vezes que já os vi. Vejo filmes como forma de entretenimento e é isso que eles são para mim... uma fonte de passar o tempo, distracção e divertimento. E como tal não sou esquisito. Para ser sincero, chego a ter alturas em que fujo a sete pés de filmes inteligentes.

Há muitos anos atrás, perguntei ao meu irmão que tipo de jogos de computador é que ele preferia, apesar de saber perfeitamente que ele não era sequer grande apreciador de nada que tivesse a ver com um computador. Para quem não conhecer o meu irmão, fica a nota de que é 8 anos mais velho do que eu, licenciado em Direito, e que acredita piamente que os computadores apenas vieram piorar a qualidade de vida do Homem. Mas adiante. Depois de ele me dizer o nome de um jogo de futebol e outro de fórmula 1, repliquei com jogos de estratégia e "role playing games", através dos quais seria possível gerir intrincados mundos virtuais, com uma infinita panóplia de caminhos a percorrer, personagens fantásticas por conhecer, regras a respeitar... e ele respondeu-me algo de que nunca mais me esqueci:

"Cesarinho... para te ser sincero, os meus estudos e trabalho já me requerem que passe a totalidade dos meus dias a pensar e a esforçar-me intelectualmente. Quando estou em casa, num momento de lazer, opto por não fazê-lo. Também se pode retirar algum proveito da estupidificação."

Na altura não percebi bem... pensei que lá estava o paleio de advogado a esquivar-se à questão. Acho que depois destes anos todos já percebo o que o meu irmão quis dizer.

Tenho pouco mais de 300 filmes... originais claro! Ninguém que pirateie filmes afirmaria ter tão poucos. Seria de imediato alvo de chacota. Todas as pessoas que conheço que "sacam" filmes da "net" falam sempre na casa dos milhares ou em "gigas":

"Epá... tou a sacar agora a terceira temporada daquela série de que nem me lembro do nome nem do que se trata e que provavelmente acabarei por nunca ver, visto que mesmo que parasse agora, nunca teria tempo numa vida útil para ver tudo o que já saquei... e são apenas 5 gigas!!!"

Faz-me rir... mas não tenho nada contra. Aliás, longe de mim estar aqui com falsos moralismos depois de tudo o que já "saquei". Nada disso. Apenas acho piada aos coleccionadores de "gigas".

"Mas tu compras filmes? Para quê? Aposto que 80% dos filmes que tens só os vês uma vez... qual é o interesse de ver um filme de novo quando já se conhece o final?"

É complicado discutir com alguém cujo discurso faz todo o sentido. Responder-lhe com algum encadeamento coerente e racional é penoso. A resposta... bom essa seria tudo menos racional. Compro filmes porque faço colecção. Porque faz tanto sentido como ter centenas de isqueiros, selos, cromos ou vinhetas de teatro. E porque prefiro ver filmes em casa do que no cinema. Sem comparação possível. Se há coisa que me irrita durante um filme é o irritante som das caixas de pipocas, dos comentários labregos e das risadas em momentos chave de filmes dramáticos. E hoje não foi excepção. Mas valeu a companhia... e todo o dia que os 3 deixámos para trás.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Os homens também choram


Quinta-feira. Como dita a instituição, existindo "quorum", juntam-se 2 ou mais "compinchas motards" para bebericar e divagar sobre as suas aventuras e desventuras motociclísticas. Hoje éramos 3... logo havia "quorum"!

Até aqui nada de invulgar. À hora habitual, lá estávamos no local do costume para dar início a uma noite que acabaria por se revelar diferente. E diferente foi o tema de conversa, que fugindo às habituais temáticas sobre o opulento busto de fulana ou às curvilíneas nádegas de sicrana, nos rematou para a religião, família... e amizade. E talvez o motivo pelo qual nos foi tão fácil dissertar sobre esta matéria foi porque os 3 sabíamos que estávamos perante amigos.

Amigos...

Palavra que no quotidiano empregamos com tal frequência que com o tempo acabou por cair na banalidade. Mas não era este o caso. Éramos e somos 3 amigos com "A" grande.

"O que é para ti um amigo?" - perguntou ele.

Esta questão caiu-me como uma bomba. Eu sei o que é um amigo. Mas falar sobre isso... como posso eu dizer o que é um amigo? Como posso eu por meras palavras descrever um sentimento tão nobre e substancioso como a amizade? Definir amizade é como definir amor... hercúlea tarefa! Mas poderá ser então a amizade uma derivação do amor?

"É uma pessoa que eu sei que estará lá por mim se precisar e por quem eu quero estar." - respondi. Pensando agora melhor no assunto acho que deveria ter acrescentado:

"É também uma pessoa por cuja companhia procuro e que quero que me procure, porque é nessa necessidade de reciprocidade, que se define o grau da relação."

A verdade é que poderia ter respondido exactamente da mesma forma se me tivessem perguntado sobre o amor. Sim, estaria incompleto... mas não incorrecto. Teria de falar de paixão também... mas essa agora seria outra história.
"E a família... consideras como amigos?" - perguntou o outro.

A verdade é que a família não se escolhe.

"Não... mas o meu irmão sim porque não é meu irmão." - disse, explicando de seguida o porquê da afirmação e clarificando a confusão.

"E quantos amigos tens?"- perguntou ele.

Ora aqui estava uma pergunta tão pertinente como traiçoeira. Se dissesse que tinha muitos estaria a desvalorizar os que considero amigos... se dissesse que tinha poucos, a verdade é que estaria a mentir. E assim que pensei nisso senti-me afortunado. Porque acreditava de facto ter mais do que a esmagadora maioria das pessoas afirma ter.

"15 talvez... cerca de 15... não sei... talvez menos... aqui pelo menos tenho a certeza que estão 2!" - retorqui. Não foi um número pensado mas foi sincero. Ambos responderam acreditar terem menos de 10...

A verdade é que eu estava perante 2 amigos de "A" grande. Eu sabia isso e eles também. Tentei em vão ocultar o quão emocionado fiquei e como tal não pude deixar de soltar uma lágrima ou duas. Mas os meus não foram os únicos olhos lacrimejantes...


PS: no final de escrever este "post" abri o notepad e escrevi o nome de todos os que considero meus amigos. São 11... afinal não estava assim tão longe!
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